Opinião
O c�nico da Rep�blica
Na idade média, a corte que se prezava tinha o seu bobo, aquele plebeu de origem humilde escolhido para divertir a realeza com as reconhecidas habilidades de malabarista, mímico e outras macaquices vindas da sua privilegiada imaginação. Os bobos da corte, conta a história, não tinham nada de bobos. Eram jovens talentosos e criativos no exercício do ofício de divertir os grandes senhores. Artistas como os comediantes e palhaços do mundo moderno que sentem prazer em fazer a alegria das audiências. Os bobos do nosso tempo são diferentes. Fantasiam-se com uma vestimentas comuns, sem as alegorias do passado. Estão uniformizados de povo. Povo que elege pelo voto livre os seus representantes, entre eles um líder maior, o comandante que pode ser leal aos princípios da democracia ou um farsante, traidor e cínico. Não sei exatamente a definição da ciência da psicologia humana para explicar o comportamento dos partidários do cinismo, hoje tão comum na vida pública brasileira. São figurinhas carimbadas frequentadoras por anos e anos das telinhas de TVs, páginas de jornais e revistas. Esse tipo de caráter alguns descrevem como ?o homem que sabe tudo e nunca sabe nada?. Ou: ?O homem que sabe o valor de tudo e o preço de nada?. Na ótica popular, é mais simples dizer que o cínico é o cara que menospreza as convenções sociais. Se lhe derem poder, se julga acima da lei, um mafioso, aproveitador. O psicólogo carioca Jadir Lessa, em entrevista para a revista Viver, explica que ?cinismo é uma negação da natureza humana?. No minidicionário Larousse está escrito: ?cínico é uma pessoa desavergonhada, debochada, sem amor, sem pudor, descarado, alguém que não tem senso de respeito?. Não existe cínico de cérebro limitado, são inteligentes, falantes, bem-humorados, de invejável capacidade de relacionamento e convencimento. Mais precisamente, ?espertos?. Sem querer fulanizar ninguém, temos que admitir que o Brasil vive uma epidemia de cinismo nunca vista na sua história. Impregnou os poderes de A a C, enquanto a sociedade está perdendo o sentimento de liberdade e esperança nas mudanças tão anunciadas e nunca praticadas. Tudo que respire dignidade humana está em falta. Só não falta a astronômica conta do roubo e do cinismo, chamada de ajuste fiscal, para o povo pagar mais impostos e receber menos benefícios.