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Os famosos e as Marias-ningu�m

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O Brasil é o País de contradições e de um povo tão emotivo que chora até as tragédias que não aconteceram. É o caso do acidente que vitimou os apresentadores da TV Globo, Luciano e Angélica, quase uma comoção nacional, mesmo com os protagonistas estando bem, sem grandes consequências após o episódio. Um pouso forçado provocou alguns machucões nos passageiros, sem maiores gravidades. Mesmo assim, o casal e filhos foram notícia a semana inteira ocupando espaços dos telejornais, jornais impressos e redes sociais. Nada mais natural por se tratar de celebridades do mundo fantasmagórico da televisão. Dos outros quatro ocupantes do mesmo voo, apenas o piloto foi citado em algumas oportunidades para explicar, com orgulho, a proeza quase milagrosa que salvou a vida da família a bordo. A mão de Deus guiou o manche da aeronave naquele momento quase fatal. Deus, esquecido nas entrevistas de Huck e Angélica, assim como as suas duas secretárias que, desesperadas como os outros, agarraram-se aos filhos do casal para protegê-los do imprevisível impacto que viria pela frente. Quando escrevo que o Brasil é o País das contradições é porque vejo a imprensa movida simplesmente pela emoção e, irracionalmente, não informa com a veracidade que o fato exige. As Marias-ninguém, apenas chamadas discretamente de babás, também sofreram, choraram, gritaram, entraram em pânico tanto quanto os famosos. E daí? As Marias-ninguém vivas ou mortas não fariam diferença, não dariam audiência! Por isso foram relegadas a um plano insignificante, discriminatório e preconceituoso. Até os patrões as colocaram no ?seu devido lugar? ao não reconhecerem publicamente o quanto elas foram importantes para as crianças no instante em que a morte rondava, voando junto com avião. Francisca e Marcileia, as babás, tinham nome, sim. São duas trabalhadoras brasileiras que estavam ali cumprindo horas de trabalho e foram ignoradas até pelos famosos, os chefes. Não dá pra medir a distância entre discriminação racial que é crime inafiançável, o ódio ao homossexualismo ou atitude preconceituosa contra os mais humildes, os pobres. O discurso de igualdade não passa de um frasear demagógico, a começar pelos shows televisivos que exploram a pobreza para encantar o emocional das audiências, estratégias tão comuns no roteiro dos shows do Luciano Huck.

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