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Nº 5730
Opinião

Mem�ria curta

Em abril de 1997, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) fez uma denúncia grave: o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) havia incorrido em crime de corrupção: o projeto de reeleição do presidente fora aprovado pela Câmara Federal (apenas s

Por | Edição do dia 04/06/2015 - Matéria atualizada em 04/06/2015 às 00h00

Em abril de 1997, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) fez uma denúncia grave: o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) havia incorrido em crime de corrupção: o projeto de reeleição do presidente fora aprovado pela Câmara Federal (apenas seis votos contra) depois de um derrame de reais. O deputado Ronivon Santiago admitiu que recebera R$ 200 mil para votar a favor. O esquema seria comandado pelo ministro das Comunicações, Sergio Motta, que morreu pouco tempo depois. Os jornais divulgaram o fato, ensaiou-se uma onda de indignação, mas tudo acabou em pizza. Não havia interesse do chamado establishment (a elite social) em desestabilizar o governo FHC. Afinal, ele atendia seus interesses. Passados 18 anos, a Câmara decide pôr fim à reeleição. Os arautos da oposição comemoraram afirmando que a presidente Dilma Roussef havia quebrado o País para se reeleger. Alguns são os mesmos que defenderam o projeto quando era do interesse deles. “Triste ironia atroz que o senso humano irrita”, como diria nosso poeta maior, Jorge de Lima. Eles agora têm outros interesses, o que os leva a inverterem o discurso confiando na máxima de que o povo brasileiro tem memória curta. O fato é que a reeleição nasceu distorcida no Brasil; isso acabou se espraiando para todos os níveis do poder, notadamente à Justiça Eleitoral. Houve leniência para com o uso da máquina pública no processo. Basta dizer que em 2010, dos 27 governadores eleitos (vários reeleitos), o Tribunal Superior Eleitoral recebeu pedidos de cassação contra 12. Inexplicavelmente, cumpriram o mandato sem serem incomodados pela Justiça, mesmo com provas incontestáveis de que agiram de má-fé; não houve passeatas, panelaços nem editoriais crispados de ódio veiculados em órgãos de comunicação ditos insuspeitos. Um paradoxo: um crime, reconhecido como crime, cujos autores não podem ser chamados de criminosos porque não foram julgados. E findo o mandato de todos, o que era um escândalo transforma-se em mais um fato que o brasileiro tende a esquecer. Fazer cumprir a Lei tem sido o grande desafio das instituições brasileiras desde que o País se reconheceu uma nação. Caso a Justiça agisse com presteza e imparcialidade, talvez não tivéssemos que estar discutindo o processo eleitoral a cada eleição. No momento, a Câmara tomou para si a tarefa, vai tocando um arremedo de reforma política sob pressão da sociedade. Resta saber se essa reforma despedaçada sobreviverá até o pleito subsequente. Quem votar, verá.

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