Opinião
Unic�rnios atr�s da orelha
Uma jovem com câncer terminal pergunta ao médico se pode fazer uma tatuagem. A resposta é não. Pergunta a um segundo e a um terceiro. Assim como as justificativas tecnicamente corretas, a resposta de todos os especialistas é sempre a mesma, não. Todos menos um. O quê? Onde? É o que qualquer um pergunta quando alguém diz que vai fazer uma tatuagem. Feita pelo último médico, contudo, essa pergunta cai como um raio sobre a garota. Ela não estava preparada para uma resposta tão prosaica. Há 2 anos ela tinha abandonado o tenro ambiente da faculdade para peregrinar pelos corredores frios e pelas conversas estéreis dos hospitais. Esse pecadilho inofensivo chamado curiosidade tinha conectado instantaneamente a paciente e o profissional. O sorriso no canto da boca entregou sua satisfação, finalmente poderia contar sua história. Sempre foi uma aluna exemplar. Dez atrás de dez, seu boletim dispensava elogios. Não bebia, não fumava, a namorar foi a última. Não se lembrava de algum dia ter decepcionado a mãe, que se na vida não teve alegria, pois viúva jovem, também não teve tristeza. Eram só as duas no mundo e dela nunca escorreu um pingo de desgosto. Tinha, porém, uma fascinação por tatuagens. Achava deslumbrante a mistura de cores e sentidos e como tantas outras meninas de sua idade, atraía-se de alguma forma pela mácula da rebeldia no corpo belo, a marca negra na pele alva. Era fascinada por sua perenidade. Quem além dela podia ter mais certeza de que na velhice não se arrependeria dos caprichos da adolescência? Mas sua heroína, genitora que lhe criara com tanta dificuldade financeira e sacrifício pessoal, era do tipo conservadora. Mesmo sabendo a resposta, ousou um dia perguntar o que ela achava. Maloqueira, drogada, vagabunda. Da conversa traumatizante, lembrava apenas dos adjetivos. Foi então gestando uma mágoa, fermentada enquanto adormecia seu sonho, por mais de uma década. A filha perfeita, que tudo deu, que nada exigiu, esperou, ao longo dos anos, que seu único pedido vencesse o preconceito, que o amor suplantasse as normas. Poderia ter assim, ressentida, deixado esse mundo, mas 3 meses antes de partir, ouviu do doutor curioso: ?Você não precisa mais seguir nenhuma regra. Faça o que você quiser?. Essa história é verídica e termina com a mãe e a filha no consultório para mostrar as tatuagens iguais, que fizeram juntas, como narra o título desse texto.