Opinião
A linguagem simples do nordestino
Na caminhada da vida como médico pediatra, tive a imensa satisfação de conviver no meu consultório com pessoas de todos as classes sociais, que levavam seus filhos menores na esperança da cura de suas doenças. Muitos desses clientes moram no Sertão ou em outras cidades do interior de Alagoas e, com força de comunicação e simplicidade, deixam marcas inesquecíveis em nossas conversas, comparando familiares, amigos, alimentos etc, de forma interessantíssima, que eu guardo como recordação para depois colocá-las em um livro. Vejamos algumas: 1) A mulher vive sempre arengando com o marido e ele se defendendo: ?É doutor, marido é como caju, o melhor sempre tem ranço?; 2) O pai é rigoroso e acha que a filha não deve sair sozinha com amiguinhos. ?Olha, doutor, eu digo sempre a minha filha adolescente que donzela e perna quebrada devem ficar sempre em casa?; 3) A mãe com o filho de 14 anos, muito gripado, no consultório: ?Ele é sisudo, não gosta de sorrir e eu digo sempre a ele: ?Meu filho, viver de cara fechada, e amar sem beijo, é macarronada sem queijo?; 4) A mamãe vai ao consultório com seu bebê de 1 ano acompanhado de sua filha de 16 anos que gosta muito de namorar. Então ela diz: ?Olhe, doutor, eu digo sempre a essa menina que namoro com liberdade termina sempre em maternidade?; 5) Seu Lucas, trabalhador na agricultura e muito organizado, não gosta de dever e tudo paga no cartão em duas ou três vezes, no máximo. Diz ele: ?Prestação e minissaia, quanto mais curta melhor?; 6) A mulher, se queixando do marido, diz. ?Ele é ruim que só falta de fôlego?; 7) O pai não quer o seu filho barbado e diz para ele: ?Meu filho, tire essa barba. Quem tem filho barbado é gato e camarão?; 8) Doutor, passe um remédio para minha perna, diz aquele avô no consultório: ?Ela dói que só ferida velha?. É assim o povo simples e bondoso do nosso Nordeste. Apesar de todos os obstáculos, de todas as dificuldades, estão sempre a sorrir, com uma fé em Deus imensa, na esperança de dias melhores. Já está chegando o nosso famoso São João. Inesquecível Luiz Gonzaga, peça licença a São Pedro e venha alegrar os nordestinos que estão vivendo cheios de obstáculos, caminhando tristemente à procura de uma ?Cacimba Nova? para que seu gado e os seus filhos não venham morrer de fome e de sede.