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Opinião

A saudade que gosto de ter

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Quando alguém que a gente ama parte para sempre, pequenos detalhes ficam grandes demais e afloram fortemente nas lembranças. Do amanhecer diferente com intensa movimentação de gente entrando e saindo e a porta do quarto de meus pais de tramela passada, fechada com segurança, só uma senhora de expressão carrancuda ia e voltava levando toalhas brancas, bacias e chaleira com água quente. Minutos depois, um forte e estridente choro anunciava a chegada da cegonha trazendo o irmão caçula. Aos quatro anos, bati o pé, esperneei por não ter visto a encantadora ave branca que conhecia das historinhas. Lembranças do sonoro ?acorda menino, olhe a hora...?. Hora do banho de cuia frio para vestir a farda do grupo escolar alvinha, bem passada, afetuosamente cuidada. Na mochila, em cima da cadeira de balanço, o lanche indispensável sempre acompanhado da tradicional mariola, bolacha Maria e ponche de laranja. Nas refeições onde todos, obrigatoriamente, tinham que sentar-se à mesa, ela servia cada um dos quatro filhos, sob os olhares serenos do meu pai, funcionário público abnegado, de grande valor como trabalhador e chefe de família dedicado. Juntos viveram e comemoraram sessenta e dois anos de união conjugal. Como esquecer os seus afazeres na cozinha, os bolos de macaxeira, doces de leite, banana em calda e goiaba, frutos colhidos no quintal de casa. Senhora do lar, prendada, tinha que ter quitutes apreciáveis para receber as visitas após a missa dos domingos. Lembranças da formidável negra Gertrudes, a vizinha de frente que agradecia as guloseimas mandadas por minha mãe com um sonoro: ?quando tiver mais, não esqueça?. Da mesa posta nos carnavais para receber o bloco do seu Roberto Alvim, repleta de mortadela e galinha assada, tira-gosto que os foliões comiam regado a Cinzano, Martini e cachaça Galo Negro. No rádio Philips alimentado por bateria de 6 volts, escutava e escrevia as receitas da D. Benta nos programas matinais dos anos sessenta. A luz subiu aos céus deixando o brilho das suas atitudes e ensinamentos assimilados pelos irmãos, filhos, netos e bisnetos que provaram da sua austeridade, amor e carinho. A dor da ausência é imensa, mas o legado de grandeza humana e afeto que recebemos alivia o sentimento de tristeza e fica uma saudade gostosa de sentir. Descanse em paz, mãe.

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