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Opinião

Entre ratos e tesouros

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Alguém pode até interpretar como ficção, mas a história aqui narrada é verdadeira e o cenário era uma casa quase em ruínas bem no centro de uma importante cidade do interior alagoano, no final da década de cinquenta. As duas janelas davam para a rua numa altura aproximada de um metro acima da calçada, possibilitando ampla visão dos transeuntes para dentro da sala. O morador era um velho solitário de longas barbas que passava o dia deitado numa rede encardida de tanta sujeira. Os mais antigos falavam que aquele homem de aparência maltratada era descendente de uma família de posses dizimada por um mal desconhecido em meados do século dezenove, sendo ele o único sobrevivente. Os fofoqueiros de plantão o chamavam de ?Lázaro? e diziam guardar uma gorda herança em joias e dinheiro deixados pelos ancestrais. A dúvida era se o tesouro estava escondido em casa ou enterrado em algum lugar secreto. Sisudo, não recebia e nem falava com ninguém. Vivia embevecido com uma paixão inusitada, assustadora: um criatório de ratos. Isso mesmo, sua casa era tomada por uma quantidade incontável de roedores que com ele dividiam todos os espaços, principalmente naquela rede suja onde os bichos desciam pelos punhos para comerem na mão do seu dono. Incrível como homem e roedores interagiam facilmente! Quem passava pela calçada e olhava para dentro da sala acreditava estar assistindo a um filme de terror. Um morador de uma rua próxima chamado Osório observou que nas caladas da madrugada o homem misterioso costumada atravessar a praça principal do lugar levando uma picareta e um saco pendurados nas costas, seguindo a passos lentos pelo caminho que levava ao cemitério. Invariavelmente, seu Osório passou a segui-lo na certeza de que logo descobriria onde o velho enterrava a mala do tesouro. Na escuridão onde só o piscar de luzes dos vaga-lumes davam sinal de vida, o temor de ser descoberto por outro perseguidor, terminava perdendo de vista o vulto da esquisita criatura. E a maratona durou muitas madrugadas até que um dia, finalmente, nos fundos do cemitério, Lázaro foi finalmente surpreendido com a mão na botija. O cobiçado tesouro do seu Osório não passava de uma grande variedade de covas repletas de ossos onde o velho rabugento enterrava centenas, milhares de ratos e ratazanas que morriam do seu criatório.

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