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Opinião

O que desejamos desejar?

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O FDA, órgão regulador americano, acaba de autorizar, pela primeira vez, um tratamento para a falta de desejo sexual feminino. Mas, antes que se gere uma expectativa exagerada, é importante avisar que o remédio tem eficácia bastante modesta. O composto apresentou apenas 10% de melhora na satisfação das usuárias. Isso significa um aumento de 0,5 relações prazerosas por mês. Com o perdão do inevitável trocadilho, é um desempenho brochante. A novidade, contudo, interessa mais pelo ponto de vista filosófico. A monogamia e as diferenças fisiológicas legaram um fardo para muitas mulheres. Esposas que têm menos tesão que os maridos, mulheres que, por frigidez, não conseguem encontrar o amor, dentre outras, seriam beneficiadas. Ou seja, a droga serve para quem não tem, mas gostaria de ter, interesse em sexo. Assim como os anticoncepcionais, que trouxeram a possibilidade do prazer sem consequências para as mulheres, e o Viagra, que prolongou o mesmo benefício para os homens, o Flibanserin promete uma nova revolução comportamental. Mas, a pergunta é, de que tipo? As pílulas promoveram a liberdade, permitindo aos indivíduos desfrutarem de sua sexualidade sem ficar reféns da biologia. É o pleno exercício do livre-arbítrio. É o ser humano conquistando seu objetivo. Agora a coisa é diferente. Pela primeira vez na história da humanidade, existe um tratamento para quem quer querer alguma coisa. Nos tempos da sociedade de hiperconsumo e status, da vaidade e ostentação, onde valemos o que temos e somos o que aparentamos, que outros desejos nós não desejaríamos desejar? Assim como a fêmea resguardada em demasia perde valor no mercado nupcial, o macho perde o seu ao não desfilar com carrões e roupas de grife, não fazer musculação e não ser bem-sucedido. Muitos tentam e não conseguem. Outros, porém, talvez simplesmente não queiram e, muito provavelmente também, não querem querer. Todas as teorias laicas e religiosas de desprendimento estariam erradas? Não almejar o que todo mundo almeja seria uma doença? A lógica mais básica diria que, se existe remédio... É aí que surge a Ostentina, nome da droga fictícia que no futuro transformará maridões relaxados nos machos alfa que suas esposas, para esnobarem as amigas, tanto desejam.

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