Opinião
O burro, a carro�a e o homem
Naquela tarde nublada de um início de inverno, um som ensurdecedor retirou-me das obrigações a que me submeto constantemente. Eram gritos de ordem, autoritários e enfadonhos, repercutindo pela estrada nua. De relance, imaginei o cenário que se deitava lá em baixo, no asfalto ainda molhado pela chuva, anteriormente desabada. Alcancei um lugar na varanda do apartamento onde resido, movida por uma curiosidade natural. As minhas conclusões eram mais do que lógicas, em nada atingiam o exagero, nem qualquer criatividade, nem qualquer utopia ou pesadelo. Ali, seguindo um ritmo acelerado de quem tinha pressa em alcançar certo destino, caminhava um homem com um estilingue na mão, arremessando-o contra um animal cansado e indefeso, conduzindo uma carroça abarrotada de metralhas e outros materiais, oriundos de demolições existentes nas proximidades. Em dado momento, após castigá-lo, subiu garbosamente num lugar privilegiado do veículo, convicto de haver executado uma tarefa digna. Sem dispor de oportunidade para alcançá-lo, limitei-me a gritar inutilmente, o que em outras ocasiões semelhantes não foi necessário, pois estava próxima do malfeitor, sendo possível conscientizá-lo da gravidade do seu gesto. Desde o início do mundo, esse meio de transporte é utilizado por pessoas de baixo poder aquisitivo e dele necessitam para a sua sobrevivência e da sua família, mas nunca ultrapassar os limites, colocando no mísero animal um fardo maior do que lhe seja suportável. O Serviço de Proteção aos Animais, órgão que agrega pessoas dotadas de amor e compreensão, deveria ser mais enérgico quanto à circulação de cargas exageradas além do limite, em animais cansados, maltratados, idosos, mas que possuem vida ! Nós, seres humanos, em circunstâncias diversas, elevamos a nossa voz, o nosso grito de repulsa quando somos agredidos ou nos obrigam a transportar volumes além da nossa capacidade. O sofrimento daquele ser, aceitando as agressões, cabisbaixo, humilde, exausto, com as pernas trôpegas, fez-me imaginar o que faríamos nós, seres humanos, se fôssemos submetidos a tamanha prova. Conscientizemos aqueles movidos pela ignorância e desamor a reconhecer o nobre dever de preservar os nossos irmãos irracionais, que tanto servem ao homem imponente e vaidoso , mas que comete absurdos, injustiças, hipocrisias e muitas vezes não é punido!