Opinião
Arco-�ris negro
A suprema corte americana decidiu, por apertados 5 a 4, pela liberação do casamento gay. Em forma de comemoração, o Facebook incentivou seus usuários a colorir suas fotos como um arco-íris. Como poucas vezes antes, isso fez as pessoas saírem de seus armários, para se posicionar sobre suas ideologias. O que inundou a rede, contudo, mais que as cores, foram as manifestações contrárias à união homoafetiva. Interessantemente, elas pareciam se incomodar menos com o fato em si do que com o apoio dos héteros à causa. Resumido e despido das obscenidades, o pensamento era o de que quem apoia a causa gay, é gay também, mesmo que enrustido. Essa ideia é a própria alma da discriminação. A história de Rachel Dolezal, ativista negra americana, ilustra bem isso. Presidente de uma associação que defende o direito dos negros e professora de assuntos africanos, dava palestras sobre como é difícil ser uma mulher negra de cabelo afro. Isso até seus pais contarem que ela era branca e mostrarem suas fotos de infância, com pele alva e cabelos loiros. Os afro-americanos, revoltados, lhe viraram as costas, acusando-a de farsa e fraude. Em sua defesa, Rachel alegou que, desde os 5 anos, amava os negros e sua cultura, e por isso decidiu se travestir como um deles. Coitada, assim como os machões no Brasil, ela não entendeu nada. Ela não entendeu que não é preciso ser afrodescendente para gostar de Jazz ou de Hip-hop, nem para se vestir ou usar o cabelo como eles. Não entendeu que a única forma de combater a intolerância racial é desqualificando a cor da pele como definidor dos indivíduos e não o contrário. É por essa interpretação distorcida da história que não temos o dia da abolição. Sendo a princesa Isabel branca, o feriado foi substituído pelo dia da consciência negra, onde ao invés de festejarmos a igualdade, somos conclamados a nos reunir em grupos de diferentes. Uma pesquisa com cantores de rap brasileiros mostrou que 95% versavam contra o racismo, porém 100% eram homofóbicos. Não entenderam que preconceito é uma coisa só, se você é a favor de um, é a favor de todos. Barack Obama, o primeiro presidente ?de cor? dos EUA, felizmente entendeu, e iluminou espectralmente a Casa Branca. E antes que venham falar de família, não custa lembrar que, se o Brasil foi o último grande país escravagista, muito foi porque a abolição era vista como ?uma ameaça à sociedade tradicional brasileira?.