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MARCOS DAVI MELO * Dois alagoanos ilustres se encontraram no Rio de Janeiro, tornado o epicentro do poder, com o deslocamento para lá do presidente da República de então, o marechal Costa e Silva, à procura de assistência médica especializada para a agressiva isquemia cerebral que o vitimara. O jornalista Luiz Gutemberg inquiriu o coronel Otávio Costa, chefe da Assessoria de Relações Públicas da Presidência da República, sobre a existência de torturas no aparato de segurança do Estado. Costa, um respeitado veterano da FEB, com pendores intelectuais que o faziam colaborador eventual do Jornal do Brasil, garantiu-lhe que não. Eram puras infâmias e calúnias. Quando Costa e Silva foi vitimado por uma isquemia cerebral que o deixou atravancado de forma irreversível ao leito, a corte palaciana que o guarnecia ? comandada pelo chefe do Gabinete Militar, general Jayme Portella ? tratou de iludir a nação e mesmo as forças armadas, sobre a real situação da saúde do presidente. Na suposição vendida à nação de que o marechal retornaria ao poder, se formou a bizarra figura da Junta Militar, constituída pelos três ministros militares, respectivamente Augusto Rademaker, da Marinha, Lyra Tavares, do Exército, e Márcio Souza Mello, da Aeronáutica. Portella era o único fora a família e os médicos que despachava diariamente com o enfermo em seu leito. A Junta Militar assumiu apenas as aparências e as mordomias do poder, quem mandava mesmo era Portella. Ao contrário da crença ingênua na época, a sucessão do enfermo irrecuperável, dentro das inconstitucionalidades vigentes, não transcorreu de forma ordenada e coesa. A briga encaniçada pelo poder dentro do regime militar e, sem o devido respeito à sua hierarquia, é uma das muitas e esquecidas constatações da obra de Élio Gaspari, A Ditadura Escancarada. Na luta ferrenha desencadeada nos bastidores, tornou-se inevitável substituir o presidente enfermo por outro general e a figura mediana de Emílio Garrastazu Médici se impôs. Existiam outros generais de quatro estrelas mais brilhantes, todavia em uma corporação onde ?a virtude está no meio?, ele terminou sendo o escolhido. Médici veio a se tornar um dos mais duros regentes da nossa história. Reprimiu com rigor os movimentos armados que se organizaram contra o regime militar. Permitiu que medrassem nos subterrâneos dos DOIs-CODIs de então, as formas mais brutais de tortura. Fossem criadas aqui, ou importadas de outras plagas mais experientes nesta atividade do porão. Esta é uma obra esclarecedora e não desprovida de humor. É oportuna por inúmeras razões, inclusive por registrar o que pode existir de real por trás do Poder, como a insuspeita anarquia militar que vigorava dentro do seu regime, aparentemente austero e rigoroso no respeito ao ordenamento de suas hierarquias. O olhar sobre a história, mesmo que recente, sempre pode nos trazer lições para o presente e para o futuro. Mormente em um momento como este, onde se inicia um governo submetido ao peso das pressões de muitas expectativas e interesses; aqui perto se agrava a crise na Venezuela e se consolida a eminência de uma guerra no Iraque. Motivos mais que suficientes para pôr as barbas de molho literalmente. (*) É MÉDICO

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