Opinião
As cores da viol�ncia
O relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Violência contra Jovens Negros, aprovado ontem, propõe a criação de um plano nacional de enfrentamento ao homicídio de jovens e de um fundo que financie políticas nessa área. Em 283 páginas, o parecer apresenta um diagnóstico da situação de violência vivida por essa parcela da população. Para a comissão, a razão primordial do genocídio institucionalizado de jovens negros e pobres é o racismo, que historicamente acompanhou a sociedade brasileira. As estatísticas mostram que os negros são de longe as principais vítimas de homicídios no País. Segundo estimativas do Ipea, a partir de dados do Data SUS, a taxa de vítimas de homicídios de jovens negros é de 74,8 para cada 100 mil habitantes, número muito superior ao de jovens brancos da mesma idade, que é de 41,8 para cada 100 mil habitantes. De acordo com o Ipea, os jovens negros são as principais vítimas da violência urbana, alvos prediletos dos homicidas e dos excessos policiais, lideram o ranking dos que vivem em famílias consideradas pobres e dos que recebem os salários mais baixos do mercado. Eles encabeçam, também, a lista dos desempregados, dos analfabetos e dos que abandonam a escola antes de tempo. Ainda pelos dados do instituto, existem hoje cerca de sete milhões de pessoas morando em vilas e favelas no Brasil ? concentradas principalmente nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro e São Paulo ? e 65,6% delas se declaram negras. A ausência de políticas públicas tornou essas áreas muito sucessíveis ao tráfico de drogas e atuação de milícias paramilitares. Não se pode, entretanto, dar uma única explicação para a alta taxa de homicídios de jovens negros. Há vários fatores que podem contribuir para explicar esse fato, como a banalização da violência na sociedade brasileira, a alta disponibilidade de armas de fogo, o racismo e estereótipos negativos associados à negritude e aos jovens negros, além, é claro, da impunidade. Tudo isso alimenta um ciclo de violência. Para mudar essa realidade é preciso, antes de tudo, promover a igualdade de oportunidades e a inclusão social dos afro-brasileiros, principalmente em políticas voltadas à urbanização, habitação, educação, saúde e formação profissional. Apenas reprimir o crime sem atacar também suas causas é como enxugar gelo.