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A flor do bem-querer

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A flor do bem-querer brota no peito de quem se dispõe a enxergar o quanto de bênção há nas coisas mais simples, presentes dados gratuitamente por Deus a cada um de nós. Na primavera em flor, coalhando de cores os nossos ipês e flamboyants, os jambeiros tingindo de rosa a terra em derredor do seu tronco generoso, pétalas salpicadas no asfalto qual gotas de alegria, pura delicadeza dos céus que alivia a quentura das estradas intermináveis. Por entre violetas e gerânios, em meio a gérberas e antúrios, açucenas e orquídeas, a flor do bem-querer impera, soberana, no jardim dos nossos afetos. E lança sobre nós o aroma da sua seiva frenética, ebulição de sentidos capaz de nos alçar ao infinito dos céus apenas imaginados. Carece de cuidados, a flor do bem-querer. Nutre-se de beijos demorados e de abraços apertados, olhar terno de quem se encanta com a imagem do ser amado, silêncio orante de quem reverencia o seu melhor sentimento. É flor frágil, que requer adubação diária e rega constante, mãos leves e movimentos precisos retirando folhas ressequidas, descartando galhos indesejados. Urge mantê-la viçosa, para que o cheiro da sua presença não cesse de inundar a nossa alma com a alegria e a leveza que só ela é capaz de trazer. Não há segredo para o seu cultivo, nem fórmula mágica para torná-la resistente às intempéries: cuida-se dela ouvindo o próprio coração, calando quando as palavras forem apenas mera profanação. Quantas vezes a olhamos e não a enxergamos, vista desviada pelos obstáculos do caminho; contudo, ela permanece ali, à espera de uma migalha da nossa sensibilidade adiada. Saibamos vê-la ? eis o desafio que se nos impõe. A flor do bem-querer viceja onde a ternura se traduz em gesto, mãos que tocam de leve o rosto amado, braços que enlaçam o ser querido com sofreguidão e firmeza, urgência gritando pela satisfação dos desejos adiados. Encantamento e volúpia, silêncio mais comunicante do que mil palavras. O olhar que repousa na pupila do outro, brilho intenso de almas que se acharam depois de anos-luz de separação, pele exalando o perfume de tempos imemoriais. De jardineiros não prescinde a flor do bem-querer, nem de pássaros e borboletas que a polinizem com certa frequência. Gotas de orvalho a farão brilhar, raios de sol darão a ela viço e fortaleza. Porque frágil, precisa de atenção; porque bela, necessita ser contemplada em silêncio, nada a atrapalhar a sua doce presença. Coisa que não se explica, não se traduz, não se compreende; coisa para ser vivida, e só.

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