Opinião
Poesia e crise
Minha pobre alma bebedourense encheu-se de inefáveis emoções ao ler, na Gazeta de Alagoas do dia 17/07/2015, o romântico ensaio do poeta Diógenes Tenório, ilustre colega da Academia Alagoana de Letras. De fato, com a sensibilidade a queimar a pele, ?A flor do meu bem-querer?, como disserta o nosso Djavan, ?Tem um quê de pecado/ acariciado pela emoção...? Gostaria de escrever coisas assim, suaves e doces que cochichem ao coração... Mãos calejadas pelas milhares de trepanações cranianas, embora emocionantes, que esperar de alguém que faz do cutelo seu instrumento de trabalho? Como irei transformar em poesia o rútilo líquido que ameaça roubar a vida de alguém? Assim, conformo-me com a mediocridade da planície sem querer mal aos parnasianos. Leio, por exemplo, quase sem acreditar, que o presidente da Câmara teria cobrado uma propina de cinco milhões de dólares. E, no entanto, Eduardo Cunha se apresenta como um homem honrado... Apesar dos poetas, o País está em crise. É a pior delas? Nunca. Apesar de os meus coleguinhas não gostarem do que eu vou falar, os meses que antecederam o golpe militar de 1964 foram assombrosos. Durante cerca de dez anos, até a crise do petróleo de 1974, conhecemos prosperidade. Ganhamos a Copa de 70. Em 1974, em atuação bisonha, fomos desclassificados pela Holanda (2 x 0 ). O ?milagre brasileiro? despencaria e ondas de insatisfações populares pipocaram, culminando com as gigantescas passeatas de 1985. O que eu quero dizer: enquanto houve bem estar econômico o país conviveu com a ditadura, oferecendo um quase irrestrito apoio. Nesse aspecto convém relembrar que o Nordeste foi um capacho. Democratizamo-nos de forma esquisita e já no governo de Sarney tivemos inflação de mais de 80%. Dizer que a Petrobras é saqueada desde FHC é ingênuo e mal-intencionado. A Petrobras deve ter sido pilhada desde Getúlio Vargas. Foi justamente por isso que o povo elegeu o candidato (da ?ética e da moral?) que denunciava tudo isso. Não fazia parte das suas promessas de campanha continuar a meter a mão no nosso bolso. Hoje, a crise é sobretudo moral. Por isso parece maior. Nossa presidente, sob suspeição, marca reunião com o presidente do STF fora do nosso território. A pauta, inconfessa, relacionar-se-ia com a liberação dos mega-empresários das empreiteiras, abocanhados pelo Lava Jato. A suspeição é generalizada..