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Opinião

Dia dos Pais

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Haroldo teve 15 filhos, catorze naturais, de duas famílias e um de adoção. Esse de adoção era o Sergio, criança encontrada na Igreja da Sé, em Olinda, sobrevivente de uma dessas enchentes sazonais que deixam rastros de desolação e incertezas. Uma das filhas de Haroldo, versão Olinda, levou a criança pra casa. Embora já tivesse uma tulha de filhos, Haroldo jamais abandonaria uma criança a própria sorte. E adotou sem quaisquer melindres, mais um filho pra chamar de seu. A sua generosidade era inata. Haroldo teve uma vida emocional complicada; duas famílias, uma com 11 filhos, a oficial, outra com quatro filhos, resultado das idas e vindas que a encruzilhada da vida expõe, mas deixa em aberto, não define nem opina. Quem se arvora a jogar a primeira pedra? Sergio sobreviveu às intempéries e se tornou os quindins daquele pai caído dos céus ou trazido pelas chuvas. O garoto foi crescendo, ficando corpulento, mas extremamente afetuoso e apegado aquele pai. Haroldo, feliz como podia, tocava do seu jeito a sua enorme filharada. Mas uma falseta lhe chega de través. Aquela criança dócil, entrando na adolescência começa do nada, a ter ataques de assustadora ferocidade, indistintamente. A situação foi se agravando e Sergio, quando dos seus surtos, passou a ser internado em hospital psiquiátrico. O pessoal de Olinda, segunda família do Haroldo, reconfigurou outra vez o mosaico e tocou a vida em frente, Haroldo ditando as normas, como sempre. Porém, numa dessas internações corriqueiras, Sergio adoece e quando Haroldo toma ciência do fato, o quadro era grave, septicemia generalizada causada por apendicite aguda. O hospital negligenciou e nada mais podia ser feito. Sergio, o ultimo filho do Haroldo, o trazido das águas que inundaram Olinda, morreu na madrugada do dia dos pais. Haroldo juntou os outros seus filhos, os de Maceió e os de Olinda, para juntos chorarem a partida prematura do caçula. Na hora do enterro, acontecido no Cemitério Santo Amaro, no Recife, Haroldo tirou do bolso traseiro da calça branca que vestia, um lenço, assuou o nariz, enxugou as lagrimas, abriu seu coração generoso de pai e fez um discurso em feitio de oração, soltando a sua bela voz a dissertar sobre ser pai, ter filhos e passar pela vida. Quando terminou pairava, sobre aquela dor lacerante de ter que enterrar um filho, um instante de paz sublime para todas as pessoas que ali estavam presentes.

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