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Opinião

Um lugar de mato verde

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Mesmo criado no interior, minha infância transcorreu na zona urbana, já que minha família não possuía sítios nem fazendas em Murici. A propriedade que nós tínhamos era apenas o pequeno quintal da nossa casa, com dois coqueiros, um pé de carambola e um mamoeiro que cedo foi arrancado, pois estava derrubando o muro lateral. Somente isso, com mais uns pezinhos de hortelã e de erva-cidreira, era toda a plantação de que eu dispunha nos dias da minha meninice feliz. E eu cresci sonhando, como na música, em ?ter na vida, simplesmente, um lugar de mato verde, pra plantar e pra colher; ter uma casinha branca de varanda, um quintal e uma janela, só pra ver o sol nascer?. Já adulto, consegui realizar aquele desejo antigo. Comprei um pedacinho de terra em Anadia, batizei-o de Chácara Santo Antônio e fiz de lá a minha Pasárgada, tal como no poema de Manuel Bandeira. Desde então ali tem sido o meu refúgio, para onde eu corro fugindo do relógio, da agenda e do celular. Plantei inúmeras árvores, principalmente frutíferas, hoje frondosas e férteis. Meu filho, meus enteados e meus sobrinhos cresceram entre elas, pegando com as mãos as suas ofertas dadivosas e aprendendo a ver lagartas, saguis, cobras e sapos. Os pássaros, soltos ? nunca os aprisionei em gaiolas ?, refrescam-se na piscina em voos rasantes, indiferentes à nossa presença, e somos sempre acordados pela sua cantoria variada. Há o galo desafinado de um vizinho, que nunca espera o alvorecer para cacarejar a plenos pulmões. Alguns cágados, três garrotes, poucas galinhas e vez ou outra um peru esperando o sacrifício do fim de ano: esse é o rebanho que habita no nosso latifúndio de afetos. O sítio, como o chamamos, só me dá prejuízo financeiro, mas, em compensação, propicia-me uma imensa paz de espírito. Lá eu guardo a minha coleção de imagens de Santo Antônio ? já são mais de cem ?, as obras dos artesãos do nosso Estado, os quadros pintados por parentes e amigos. Quase não há mais espaço nas paredes, tomadas pelas lembranças das viagens que já fizemos. Pedras de tudo quanto é lugar, sementes diversas, punhados de areia jogados ao léu: cada coisa tem memória e valor, tudo fala alto ao nosso coração. Um caderno guarda os depoimentos de quem partilhou do nosso convívio; alguns já fizeram a grande travessia (Lenira, Ana, Graziela, Naida), mas a sua letra sempre os trás para pertinho de nós. A nossa Chácara Santo Antônio é um lugar abençoado, onde Deus nos fala no silêncio e na contemplação. Que céu poderia ter mais gosto de céu?

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