Opinião
Intoler�ncia ao extremo
O Brasil está entre os países onde mais ocorrem tentativas de linchamento no mundo. Nos últimos 60 anos, mais de um milhão de brasileiros participou de ações de justiçamento de rua. São aprisionamentos, espancamentos coletivos e cenas bárbaras que já fizeram vítimas em quase todos os estados do País, contando apenas os noticiados ? não há estatística criminal sobre linchamentos no Brasil. Na última quinta-feira (30), no Rio de Janeiro, um homem suspeito de assalto teve as mãos e os pés amarrados por um grupo de pessoas e precisou ser encaminhado a um hospital. No dia 27, outro homem foi acusado de estupro e teve o rosto ferido. Também foi levado para receber socorro médico. No dia 26, por ser suspeito de tentativa de roubo, outro foi espancado e acabou morrendo. Os espancamentos são fruto da combinação da percepção de Estado ineficiente, por parte da população, com uma tradição de desrespeito aos direitos humanos. Especialistas em comportamento humano, segurança pública e direito dizem que a intolerância é a principal causa desses episódios. Esse tipo de catarse coletiva ocorre principalmente em bairros de periferia dominados por uma sensação de insegurança constante contra crimes determinados. De um lado, há a percepção de que o Estado não é capaz de prover segurança e justiça. O linchamento, então, funciona como uma espécie de controle social, punição ou pena dada à pessoa acusada de cometer um crime, não necessariamente culpada. Nesse caso, não há nenhuma base de investigação e a imputação da responsabilidade se dá no calor dos acontecimentos. As motivações que levam à intolerância e aos linchamentos variam, mas a principal é um crime contra a vida, como casos de homicídio ou latrocínio. A segunda motivação pode ser um crime contra o patrimônio e a terceira, crime contra os costumes, que são os casos de estupro. O Estado de Direito pressupõe uma Justiça que julgue as pessoas, que pretensamente cometeram algum desvio de conduta ou ilícito. Para isso é que existe o Poder Judiciário. O fato é que, independentemente de a vítima ser inocente ou culpada, o justiçamento não pode ser visto como algo aceitável, ainda que o suspeito tenha culpa, pois não se trata de uma ação para fazer justiça, mas para fazer vingança. É um retrocesso.