Opinião
Para as �guas profundas
DOM FERNANDO IÓRIO * Marcante será o ano de 2003 para as vocações no Brasil: Ano Vocacional. O tema é ainda o eco da carta apostólica ?Começando o III Milênio?, do Papa João Paulo II, na qual nos pede o Santo Padre que ?avancemos para as águas mais profundas?. Convicto está João Paulo II de que a vocação aflora do desejo de ir além do cotidiano para o mar do amor total e da entrega sem reservas. Toda vocação é a necessária resposta à inquietação e à angústia diante do sofrimento da humanidade; é o desejo de ?ser mais e fazer mais? em favor de quantos vivem à margem da vida e da história. A partir do Batismo, nós cristãos ? para os quais a água batismal não enxugou depressa, na expressão de Bernanos ? não podemos deixar de responder ao desafio de avançar para águas mais profundas (Lucas 5,4). Somos convidados a meditar a passagem evangélica da ?pesca milagrosa?: Pedro, Tiago, João e seus companheiros mantinham-se cansados e desanimados. Nada tinham conseguido pescar, ao longo de uma noite de labuta. Revela-se Jesus, diante deles, convidando-os a que lancem suas redes nas águas mais profundas, ainda que em condições desfavoráveis. Encheu-se de peixes a barca. Não foi para menos o entusiasmo dos apóstolos, ante a miraculosa pesca. O convite de Jesus, que fora desafio para os apóstolos, não deixa de ser privilegiado apelo para nós, a ponto de traduzir o entusiasmo vocacional em diretrizes concretas de ação, capazes de dar novo impulso e dinamismo ao que já estamos realizando. Avançar para águas mais profundas é superar toda sensação de saciedade; é romper com possíveis atitudes de comodismo, investindo em iniciativas concretas aquele entusiasmo que sentimos. Será o medo o que nos impede avançar? Mesmo não animador, o momento atual, caracterizado pela desconfiança, pela sensação de que os problemas e desafios são maiores do que nossas forças, é momento de confiarmos na palavra tranqüilizadora do Mestre: ?Não tenham medo? (Lc. 10). É o momento de cada um continuar pescando ?nas águas mais profundas?, fortalecendo uma espiritualidade encarnada e transformadora, desenvolvendo o exercício da cidadania eclesial e cívica, aprofundando a consciência crítica, de forma permanente e sistemática, denunciando as injustiças, sendo testemunha, profeta e anunciador da Ressurreição. Atrever-se a lançar as redes, sem medo, sem temor, sempre mais longe, sempre mais fundo. A pesca virá, ainda que na hora sem hora, no meio da noite, em que o sonho utópico se torna certeza tópica. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS