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Opinião

Meia cinco, simples assim

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Metade da rua era revestida com paralelepípedo e a outra metade de chão batido. Os mais velhos viviam uma vida cordial, davam-se bem. À noite, as calçadas ficavam repletas de cadeiras onde famílias contemplavam as estrelas se refrescando com a brisa vinda do rio. Meu pai cochilava na cadeira de balanço em frente ao rádio ?ouvindo? a Hora do Brasil. Minutos antes das dez, as luzes da cidade apagavam e acendiam por três vezes anunciando que era hora de preparar os candeeiros. Em pouco tempo tudo viraria breu até o anoitecer do dia seguinte. Vida de interior nos anos cinquenta era assim, tudo muito simples e, tão comprometidamente vivido, que nem havia tempo para sentir falta de nada quando se era criança. Escola de alfabetização ao lado, a igreja em frente, o São Francisco para banhar-se e pescar piaba. As pedras bem arrumadas pela natureza davam formas ao Morro do Urubu quase no quintal de casa, local de encontro da molecada para caçar lagartixas. No São João, ruas inteiras ardiam com o calor das fogueiras e assistiam a guerra de espadas, rompendo a escuridão da madrugada mais parecendo o caminho do inferno. As quermesses na festa do Coração de Jesus, padroeiro da cidade. O giro do carrossel, o sobe e desce dos barcos no parque nas festas natalinas. Hoje, no frescor de uma juventude amadurecida aos 65 anos acabados de completar, volto no tempo e aperta uma saudade danada dos primeiros anos vividos em Pão de Açúcar. O adocicado lugar que me viu nascer e crescer até a partida definitiva aos dez anos. Uma vida simples assim me ensinou humildade, tolerância, paciência, lealdade! Daí pra frente com muitos mestres, aprendi, entre eles, o maior de todos: ?o mestre mundo?. Do aroma das flores ao gosto amargo do fel, hoje, respiro alegria, felicidade, amor à família e aos amigos verdadeiros. Voltei para rever o cenário da minha infância e pelos antigos caminhos perambulei. Vi com tristeza que a casa 145 da Rua Pe. Soares Pinto, não tem mais as três janelas e a porta de persiana na cor azul. Não tem a barra vermelha no rodapé da faixada pintada carinhosamente a cada virada de ano pelo meu bondoso pai. Aquela não é mais a casa em que nasci e brinquei pelos corredores com os irmãos e primos. Mudou! Mas de uma coisa tenho certeza: lá dentro ficaram a energia do amor, alegria e paz.

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