Opinião
Um olhar para o futuro
Depois do anúncio do reatamento das relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos, no final do ano passado, pela primeira vez em setenta anos, um chefe da diplomacia americana fez uma visita oficial a Havana. Ontem, o secretário John Kerry estava presente ao hasteamento da bandeira dos EUA na capital cubana, em mais um passo na normalização das relações entre os dois países, que estiveram de costas voltadas durante quase 54 anos por causa de um embargo imposto por Washington ao vizinho caribenho. Tentativas de invasão, imposição de um duro embargo e a crise dos mísseis nos anos 60, que quase levou o mundo a uma guerra nuclear, marcaram esses 50 anos, os quais, a partir de agora, passarão a fazer parte da história. Com a reabertura da embaixada, Washington e Havana poderão olhar para um futuro sob uma nova perspectiva, algo que parecia inimaginável há alguns anos. A revolução de 1959, comandada pelos irmãos Castro, derrubou o governo apoiado pelos Estados Unidos e depois nacionalizou propriedades americanas. Os Estados Unidos responderam com um duro embargo comercial que dura até hoje e serve como justificativa do governo cubano para as dificuldades econômicas vividas pela ilha. Ao anunciar o reatamento das relações diplomáticas ? com as bênçãos do papa Francisco ?, o presidente Barack Obama reconheceu que essa estratégia falhou em atingir os resultados desejados. Entretanto, a suspensão completa do embargo só pode acontecer por decisão do Congresso americano e não por medidas executivas do presidente. Será outra batalha, já que o atual Congresso tem se mostrado resistente em oposição a Obama. A reaproximação é, sem dúvida, um passo histórico, mas não definitivo para normalizar a relação entre os dois países. Existem ainda muitas questões a serem resolvidas, como o fim do embargo, a questão de Guantánamo, dos exilados e o respeito pelos direitos humanos. A aprovação do fim do embargo pelo Congresso parece estar condicionada a duas coisas: que Raul Castro deixe o poder e que Cuba inicie um processo de democratização. Do ponto de vista cubano, entretanto, são os Estados Unidos que devem reconhecer sua forma de ?democracia popular e participativa?. Parecem visões inconciliáveis, mas a história já provou que tudo que é sólido se desmancha no ar.