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S�o Jo�o em Murici

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?Ó meu Deus, quanta saudade/ que dentro de mim invade,/ quanta lembrança dali,/ das noites de São João/ no meu querido torrão,/ no meu lindo Murici?. Os versos do poeta e conterrâneo Antônio Miguel da Silva bem traduzem o que passeou pela minha alma no mês de junho passado, quando os festejos juninos invadiam as ruas de todo o nordeste, salpicando de cores e de música os recantos da nossa região e fazendo a minha memória revisitar o ontem que nunca se apaga. Nos dias azuis da minha infância abençoada, o São João em Murici tinha o sabor das pamonhas e das canjicas preparadas cuidadosamente por minha avó Izarele, do milho assado vendido de porta em porta por ?Chama na Espiga?, apelido que lançou no esquecimento o nome próprio daquela mulher guerreira que andava pelas ruas com uma penca de filhos em seu encalço. Meu avô Zezinho Fogueteiro incrementava a produção de chuvinhas, traques e chorões, disputando com Fausto Cardoso a preferência da pivetada ávida por iniciar a guerra de buscapés, tão logo caísse a noite. Zé Pinheiro mandava deixar na calçada da minha casa uma pilha de lenha seca, Mané do Izique preparava a fogueira alta e nós brincávamos ao seu redor, sob o olhar amoroso da minha mãe e do meu tio Nado, sentados no batente estreito da porta. Eu e Geraldo, filho de seu Horácio da venda, cada qual em sua bicicleta, subíamos para o Campo Grande, onde a quadrilha da Lourdes destacava-se das demais por sua beleza e sua energia, as meninas lindas vestidas de matutas, os rapazes trajando roupas quadriculadas e chapéus de palha. Dé Baião, já cheio de cachaça, cantava os forrós de Luiz Gonzaga na porta do bar do Gerson, enquanto Pitiguari dançava sozinho na Praça Padre Cícero, doido para arrumar uma parceira que nunca chegava. Madrinha Eulália puxava o terço de Santo Antônio, enchendo de esperança as solteironas que ansiavam por um grande amor, e o velho Alonso trazia mais uma fornada do bolinho quente que derretia na nossa boca. Chovia muito em Murici durante o mês de junho, a iminência da cheia do Mundaú assombrando o nosso sono infantil e o frio noturno criando o clima propício para as colchas grossas guardadas no velho armário do quarto. Mas, somente as pontas dos nossos dedos ficavam geladas; os nossos corações estavam aquecidos pelo calor das festas de Santo Antônio, São João e São Pedro, e os nossos sonhos buscavam o céu pegando carona nas faíscas das fogueiras que transformavam as ruas num imenso corredor de fumaça. Os olhos ardiam, mas o espírito ficava em plenitude de graça.

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