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PATRÍCIA RAMALHO q Há vinte anos, passei alguns meses nos EUA. De lá contava, nas minhas correspondências para o Brasil, todas as minhas aventuras e descobertas em um país tão diferente do nosso, onde tudo o que é coletivo possui muita ordem e disciplina. Um fato que presenciava, invariavelmente, todas as vezes que saía à rua, era a incrível soberania do pedestre ao pisar na faixa de segurança. Era simples e automático: pedestre pisou na faixa, automóvel, bicicleta, motocicleta ou qualquer veículo de locomoção parava na hora! Isso, há vinte anos ... Outro dia, li um texto de Luis Fernando Veríssimo, na revista Próxima Viagem, no qual ele falava da loucura e caos que é o trânsito em Roma. Segundo Veríssimo, ?no trânsito romano ou você enlouquece logo ou se adapta, e a maneira de se adaptar é enlouquecer aos poucos.? Conta ele: ?Não há lugar para se estacionar em Roma, e o resultado é que os romanos estacionam de qualquer maneira. Em cima da calçada, em fila dupla, em fila tripla, em qualquer brecha?. E aí se ?você pensa que não há espaço a seu lado para mais nada, pode ter certeza de que um Fiat 500, o Cascudo Maledeto, se intrometerá por ali e ficará esperando o instante de cortar simpaticamente à sua frente?. Mas ele finaliza o seu texto dizendo: ?Com toda a sua loucura, no trânsito romano o pedestre ainda tem prioridade. Pedestre atravessando a rua sobre a faixa de segurança faz parar tudo. Até Fiat 500.? Decido, então, ir fazer uma caminhada na orla da Ponta Verde, aqui em Maceió. E lá vou eu me aventurar na faixa de pedestre. Descubro, logo, que não estando nem nos EUA, nem em Roma, vou morrer atropelada, acusada de tentativa de suicídio pelo olhar de desaprovação do motorista: como é que eu, simples pedestre, vou tentar interromper o seu trajeto na avenida? E é assim que estamos nos comportando: não lhe conheço, não tenho nenhum motivo para ser gentil com você. O que, na verdade, não é nenhuma questão de gentileza e sim de cidadania. Deveres e direitos. Adoramos tudo o que é americano ou importado, dali ou não sei de onde. Mas estamos vivendo a era do coisa-pessoa-coisa. As coisas, para nós, são a motivação e o fim. E nós, pessoas, acabamos sendo mais uma coisa. Portanto, parece só nos importar coisas, mercadorias. Uma pena, pois as coisas ficam velhas, saem de moda, quebram, deixam de funcionar. Quando absorvemos conhecimento, cultura, valores, eles passam a fazer parte de nós, de nossa pessoa. O conhecimento não envelhece. Ele nos amadurece. E a vida? O que ela vale? Ah, a vida é assim: uma hora sou motorista, outra hora sou pedestre. Tomara me lembrar disso sempre que estiver do lado mais forte... (q) É ARQUITETA E URBANISTA

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