Opinião
Sem maquiagem
A decisão da equipe econômica do governo de enviar para o Congresso Nacional uma proposta de orçamento para 2016 com previsão de deficit de R$ 30,5 bilhões ? algo inédito na história republicana ? causou reações diversas, como era de esperar. Parlamentares da base governista destacaram o fato de que o Planalto estava agindo de forma transparente e não produzindo uma peça de ficção como costuma ocorrer. Para oposicionistas, no entanto, o governo está fugindo de suas responsabilidades, deixando no colo do Congresso a obrigação de desarmar uma ?bomba? produzida por ele mesmo, o que seria prova de sua incompetência. Ao passar a bola para deputados e senadores, o Planalto também poderia estar buscando chancela do Congresso para elevar a carga tributária e, assim, cobrir o rombo orçamentário. Sem forças para aprovar aumento de impostos e sem querer patrocinar cortes de programas sociais ? tao caros às gestões petistas ?, o governo terceirizou a tarefa. O fato é que o momento é grave e governo e Parlamento precisam deixar de lado as questões políticas e se debruçar sobre a realidade econômica do País. Não há outra saída a não ser ?aumentar receita e cortar despesa?, mas isso terá de ser feito de forma a não sacrificar ainda mais a classe trabalhadora. Cortar sim, mas cortar os gastos supérfluos, eliminar o desperdício e o desvio de verbas. Será um longo debate em busca de alternativas para superar a questão do deficit. Além de algumas barbeiragens cometidas na condução da política econômica, principalmente no ano passado, o deficit primário de R$ 30 bilhões previsto no projeto de orçamento da União para 2014 pode ser visto também como fruto das elevadas taxas de juros. Nos últimos 12 meses, o País pagou R$ 451,8 bilhões, o equivalente a 7,92% do produto interno bruto, despesa que em julho de 2013 representara apenas 5,6% do PIB. Enquanto isso, de julho de 2013 a julho de 2014 e de julho de 2014 a julho deste ano, várias despesas públicas subiram abaixo da inflação ou até caíram, como os gastos com a Previdência Social, os investimentos e as transferências para estados e municípios. É preciso, pois, buscar um reequilíbrio das contas públicas com uma mudança de rumo na política econômica. Não se pode jogar a conta desse deficit nas costas do trabalhador.