Opinião
Prioridade estrat�gica
Relatório divulgado ontem pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em parceria com a Agência Nacional de Águas (ANA), aponta que a sensação de que o Brasil é abençoado com abundância de água faz com que se despreze a importância de uma estratégia de longo prazo para a gestão dos recursos hídricos. Segundo o documento, os diversos planos de recursos hídricos a níveis nacional, estadual, local e de bacia hidrográfica são ?mal coordenados e não chegam a ser colocados em prática, por falta de dinheiro ou capacidade limitada de acompanhamento e execução?. A OCDE critica o isolamento de órgãos públicos, o que, segundo o relatório, dificulta a coerência política entre os setores de recursos hídricos, agricultura, energia, licenciamento ambiental, saneamento e uso do solo. Um exemplo emblemático é o caso de São Paulo. Somente em agosto, depois de quase dois anos do início do chamado período de ?restrição hídrica? ? eufemismo para o baixo nível dos reservatórios ? é que o governo do Estado reconheceu a ?criticidade? da situação na região da bacia do Alto Tietê, que abastece 4,5 milhões de pessoas, principalmente na zona leste da capital e a região do ABC. Para o Ministério Público, foi uma iniciativa tardia e incompleta, pois não foram especificadas as medidas a serem tomadas para enfrentar o problema. Para os especialistas, os encarregados de administrar a água devem ser francos e diretos no que dizem à população, e as possíveis ações devem ser discutidas em um fórum aberto e público.Tudo isso é muito mais fácil de fazer durante uma seca se a população for envolvida desde o início, se as ações relativas à seca tiverem sido discutidas anteriormente, se existir um plano para a seca com medições, gatilhos e ações claras, e se houver liderança no governo ou no órgão gestor em que a população acredita. É o que parece faltar. O Brasil não pode mais fazer uma gestão de crises hídricas, mas, sim, gestão de ?riscos?, tendo em vista as previsões de crescimento populacional e econômico e as mudanças climáticas. A crise hídrica impõe que a sociedade coloque a gestão da água como prioridade estratégica, com benefícios econômicos, sociais e ambientais mais amplos para a política nacional. Sem isso, estaremos condenados ao caos.