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Opinião

Ci�me implac�vel

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O ciúme traduz um forte sentimento de propriedade, de inquietude e temor de perda. Proteção excessiva sobre o objeto amado e demonstração de insegurança quanto à reciprocidade dos afetos. Uma manifestação egoísta da nobre liberdade de amar. O célebre dramaturgo inglês William Shakespeare, em notável inspiração, denominou-o ?o monstro dos olhos verdes?, simbolizando nos gestos extremados do bravo guerreiro Otelo a força destrutiva deste implacável sentimento. O escritor Anatole France ousou literariamente traçar a distinção entre o ciúme do homem e da mulher. Revelação luminosa da diferente forma de amar e da maneira de sentir de cada um. A obra teatral de Racine revelou Fedra, exemplo da amante obsessiva e cruel, em conflitos com sua rival Aricie. A ciência penal, leciona o professor Roque de Brito Alves, não oficializa o grau de distinção do ciúme do homem e da mulher, embora sejam diversas suas manifestações e o nível de suas reações. Ambos estão sujeitos a escala progressiva ? amor, ciúme, ódio e agressão. O ciúme também cogita ser um sentimento plausível, à medida que caracteriza uma louvável preocupação em defesa da convivência humana. Um interesse de preservar os destinos das relações amorosas suscetíveis das ameaças do tempo e das circunstâncias. O ser humano se transfigura ante as emoções de uma afeição avassaladora. O moderno historiador inglês Theodoro Zeldin afirma que a paixão é uma arte que as pessoas ainda não dominam; o amor seria uma revolução inconclusa. As contradições do ciúme estariam exemplificadas na obra de Rabinowicz, através da citação da senhora Rieux: ?Não há nada mais incômodo que um parceiro ciumento, porém não conheço nada mais humilhante que um que não o seja?. A relação amorosa consagra afetos mas registra cobranças implacáveis. Não cristaliza as qualidades dos seus personagens. Os amantes para perpetuarem seus idílios precisam cultivar a amizade. Somente a amizade faz justiça. Os bons amantes não fomentam discórdias nem cometem delitos. Esgotam suas emoções, inauguram novas motivações sentimentais e se alimentam da complexidade dos afetos. O ciúme não delineia esperanças, vive de tormentas e pesadelos. O amor quer a liberdade dos gestos, a eleição das horas e o encanto das promessas guardadas.

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