Opinião
A cara e a torta
EDUARDO BOMFIM * O Brasil e o mundo inteiro assistiram, pelas imagens da televisão, quando o presidente do Partido dos Trabalhadores, José Genuíno, recebeu em plena face uma torta atirada por uma militante de um excêntrico Movimento Internacionalista dos Confeiteiros. Alegou a ativista, que protestava contra a presença do presidente Lula no fórum de Davos, que o principal mandatário do País não representava o Fórum Social Mundial realizado em Porto Alegre, onde, aliás, o presidente da República foi ovacionado, um dia antes, pela multidão que lá se encontrava. Não tenho informações se existe realmente o tal movimento mundial dos confeiteiros, mas ele me lembrou de imediato o excelente, irreverente e satírico diretor de cinema italiano Nanni Moretti. Especificamente no filme ?Meu Caro Diário?, quando ele próprio, como ator, rememora a sua infância e as desventuras de um padeiro trotskista, velho conhecido de seu pai. Se no filme o episódio oscila entre o engajamento revolucionário e a compaixão pelo personagem de uma remota lembrança, em Porto Alegre ele suscita em nós a solidariedade a um comprovado militante de esquerda, dirigente partidário, humilhado publicamente. Não importa se com uma torta que, diga-se de passagem, dos males foi o menor ? poderia ter sido uma pedra ou algo bem pior. Devo dizer, com a máxima sinceridade, que tenho pelo tal fórum, e já escrevi sobre o assunto, um misto de entusiasmo em função do combate ao capital financeiro internacional, e uma reticência teimosa. Não me agrada um certo Bové, francês e o inimigo mais declarado dos transgênicos. Capaz, comenta-se, de destruir uma plantação suspeita com os próprios dentes, além de portar um bigode de Asterix e louco por uma câmera de TV. Há, entre excelentes figuras e organizações progressistas e mesmo revolucionárias, um número razoável de entidades e personalidades, digamos assim, confeiteiras. Falam da presença de um movimento revolucionário internacionalista de combate aos parquímetros, que por sinal não é muito usado nos países do terceiro mundo. Além desse, listou-se a associação mundial em defesa dos grilos e outra bastante admirada, a dos flautistas de najas, serpentes hipervenenosas do sul da Ásia e da África. Mas discute-se pouco sobre pátria, cultura, identidades, raízes nacionais. Defesa e reforço de políticas dos Estados do terceiro mundo, além do combate contra o imperialismo norte-americano e outros. É o que dizem. De qualquer forma, vale a contestação internacional aos poderosos do planeta. E o fórum transformou-se em um encontro internacional democrático contra as desigualdades sociais, em defesa dos oprimidos de todos os quadrantes e até de quadrados como eu ? que possuem alguma resistência em relação a um ou outro aspecto do caleidoscópio ideologicamente multicultural. Mas não há de ser nada, tenham paciência que eu vou entendendo. Lembrem-se que há dez anos fui chamado de dinossauro porque não assimilava o milagre do neoliberalismo. Reconheço, sou recalcitrante na aprendizagem dos novos fenômenos sociológicos e políticos. Por falar nisso, sem ofender, será que o movimento internacionalista dos confeiteiros não errou com a cara ? Talvez, quem sabe, o alvo fosse o Bush. De qualquer maneira, a face do Genuíno era mais fácil de atingir. Já a cara do outro é barra pesadíssima e iam logo declarar os confeiteiros internacionalistas, povo do Bin Laden, terroristas brutais, que a torta era um novo e poderoso agente químico, negócio do Sadam, lá do Iraque. Homem, era o diabo. E torta não podia se estragar. (*) É ADVOGADO