Opinião
Al�m da fome
As autoridades governamentais e demais pessoas que realmente querem o País livre das gritantes desigualdades sociais devem atentar para os diversos aspectos desses problemas. Principalmente quanto às reais necessidades das famílias mais carentes, a partir do que disse, ontem, a coordenadora nacional da Pastoral da Criança, a médica Zilda Arns. Mesmo participando do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), que acaba de ser instalado pelo governo, ela disse, referindo-se ao projeto Fome Zero, que isso não adianta para reduzir a miséria. ?O que reduz a miséria é dar educação, alfabetização, moradia e saneamento. É preciso que se dê auto-sustentabilidade a essas famílias?. Como o próprio governo tem anunciado mais ações com a implementação do Fome Zero, torcemos para que elas sejam suficientes para atender aos segmentos da sociedade que continuam sem o devido acesso a esses bens e serviços. Para a prosperidade do País que, segundo um dos estudos elaborados pelo Instituto de Política Econômica Aplicada (Ipea), tem um terço da população na pobreza e mantém, há duas décadas, um dos piores níveis de desigualdade. Nem a estabilidade econômica criada pelo Plano Real contribuiu para modificar esse quadro. Enquanto em 1995, 33,9% dos brasileiros viviam em situação de pobreza ou indigência, em 1999 esse percentual já era de 34,1%. Só a má distribuição de renda responde sozinha por quase dois terços dos 53 milhões de miseráveis do País. São consideradas indigentes as pessoas que vivem com dinheiro suficiente para comprar uma cesta de alimentos com o mínimo de calorias necessárias ao ser humano. Há cerca de 20 milhões de brasileiros nessa situação. Na categoria pobres, estão aqueles que têm o dobro disso. Conseguem adquirir a alimentação básica, mas não têm o suficiente para outros itens essenciais, como moradia, roupa e transporte. São mais de 30 milhões de pessoas. Cremos que bastam estes números para termos a compreensão dos enormes desafios que representam as causas e efeitos desses problemas, para sabermos que todos eles devem ser enfrentados com a imprescindível seriedade. Por todos dirigentes públicos e participantes das mais diversas instituições e entidades não-governamentais.