Opinião
A mancada da revista
Tanto neste espaço como no caderno Saber, já me entreguei à ventura de escrever sobre vinhos, paixão que adquiri com meu saudoso sogro Ib Gatto. Ao escrever, sempre cuido para não ir além das sandálias. O entorno do vinho, sua história, curiosidades, mitos e folclore proporcionam uma infinidade de motivos para não ser egoísta e trazer para os amantes do néctar de Baco gostosos conhecimentos. Mas não sou, como já disse de outras vindas, o ?enochato?, que fica procurando cheiro de titica de galinha na bebida. Depois de degustar durante 50 anos, acho que posso saber qual aquele ou aqueles que mais me agradam. Mas sinto dificuldade em passar essa preferência num lapso, pois se trata de gosto, e isso, não se discute. Talvez seja como o perfume. Há quem goste dos aromas mais fortes e outros prefiram os amenos. E até quem não o use, como uma grande maioria que não gosta do vinho. Estando em uma loja especializada, um amigo pediu-me que desse uma dica sobre vinho. Mesmo que lhe perguntasse para que momento, com que ou com quem iria saborear, na certa esbarraria em paladares diversos. Para os já iniciados, existe uma gama de avaliadores em todo o mundo que fazem o trabalho de degustar, pontuar e indicar os melhores vinhos de cada safra. São os conhecidos Roberts Parkers da vida e seus sensíveis olfatos, e revistas que pontuam cartas de vinhos dos melhores restaurantes. Evidente que são generosamente pagos para tal. Neste mundo globalizado e dolarizado, escolher melhores pode acabar em mancada. Quem poderia dizer que a maior revista deste naipe iria cometer erro imperdoável em uma analise classificatória? O economista Steven Levitt e o jornalista Stephen Dubner em seu livro ?Pense como um freak?, Record, narram um fato inusitado. A mais conhecida avaliadora e pontuadora de vinhos recebeu, em sua sede nos Estados Unidos, solicitação para classificar uma carta de vinhos de um pretenso restaurante estabelecido em Milão, na Itália. Anexado à correspondência não poderia deixar de ir o respectivo cheque em pagamento pelos serviços. O crítico gastronômico e de vinhos, Robin Goldstein, foi o remetente da correspondência, mas, o restaurante era fictício e a carta de quinze vinhos fora, propositalmente, composta de vinhos anteriormente reprovados pela própria revista com nota média de 71 pontos ? onde qualquer vinho abaixo de 74 ?não é recomendado? ? e o restaurante, inexistente, recebeu ?Prêmio de Excelência? que, após divulgada a mancada, deixou a revista em palpos de aranha.