Opinião
Adeus ao presidencialismo
Se me falasse tempos atrás que a solução política do Brasil passaria pela mudança do presidencialismo para o parlamentarismo, eu discordaria de você. Afirmaria que o parlamentarismo traz instabilidade, que o serviço público não estaria pronto, etc., etc. Como não tenho ideia fixa, mudei meu pensamento diante dos fatos que hoje presenciamos boquiabertos! Se a posição da presidente é insustentável e a crise se alastra na política e na economia, não temos instrumentos constitucionais para convocarmos uma nova eleição a não ser que se anule a anterior e assim mesmo os recursos dessa decisão podem levar anos para serem julgados, ou seja, para mudar um governo carcomido por denúncias de corrupção, sem apoio no Congresso, apanhando feito cachorro sem dono de tudo e de todos, com derrotas sucessivas no Congresso e índices e projeções na economia de fazer inveja às mais catastróficas previsões, teremos de enfrentar um desgastante processo judicial. No parlamentarismo teríamos a queda do governo da forma mais natural do mundo, com uma nova conjunção de forças, que, não desse em nada, resultaria na convocação de novas eleições para a composição de novas forças que poderiam governar o país. Hoje o serviço público funciona como uma máquina azeitada que não se ressentiria da presença de um novo governo e comprovaria que os milhares cargos em comissão são cabides políticos que poderiam ser reduzidos drasticamente. O presidencialismo, sistema copiado por Rui Barbosa dos americanos, foi implantado sem que tivéssemos a menor experiência com ele e resultou, após tantos anos, em aventuras ditatoriais e culto a personalidades, vide Getúlio, JK e mais recentemente Lula. E o pior, gera reações apaixonadas e cegas como se o grande líder fosse uma alma imaculada que jamais poderia ser objeto de contestação ou indignação. No parlamentarismo dificilmente se constroem heróis e os políticos terão de abraçar partidos com identidade própria e não apenas casas de abrigo, como hoje. No caso de impeachment tiramos a presidente, mas mantemos o seu vice, ou seja, trocamos seis por meia dúzia, já que mudamos para não mudar nada, e não me refiro ao atual vice, mas a qualquer um que tenha concorrido em uma mesma chapa, comungando dos mesmos princípios e discursos. É tão falsa a promessa de mudança quanto um falso brilhante. Reluz, mas no fundo não vale absolutamente nada. Parece que chegou a hora de darmos adeus ao presidencialismo!