Opinião
O mito da m� gest�o
Alguns anos atrás uma reportagem do Fantástico revelou um esquema para fraudar compras nos hospitais universitários. Ao mesmo tempo em que mostrava fornecedores pedindo propina, as imagens exibiam pacientes nos corredores, falta de medicamentos e infraestrutura sucateada. A relação de causa e efeito parecia óbvia. Chegava ao ápice a teoria da má gestão. O boom econômico da última década atrelado a interpretações inocentes sobre gastos percentuais levou ao diagnóstico de que o problema da saúde no País era a má gestão. Na opinião desses entendidos (que coincidentemente nunca eram da área da saúde), não faltava dinheiro. Se os hospitais fossem administrados por gestores competentes, todos os problemas se resolveriam. O governo federal criou então a EBSERH, uma estatal para gerir os hospitais universitários. Com gerentes escolhidos por mérito no mercado, sua expertise gerencial seria a solução definitiva. Mas eis que veio a crise e, com a redução dos repasses, o HU da UFAL teve que fechar as portas. Mesmo sendo historicamente reconhecido como um dos mais bem geridos HUs do Brasil e estando sobre o domínio da EBSERH, não dava pra fazer milagre. O problema não estava em Alagoas, nem na EBSERH (caminho certo para a saúde pública), o problema era a pura e simples falta de dinheiro. É claro que prevaricação e ineficiência existem, mas por mais que a desnutrição possa piorar o estado de um paciente com câncer, não se cura um tumor com vitaminas. A tabela do SUS é insuficiente para manter funcionando um hospital e as únicas saídas são buscar financiamento extra na rede privada ou fazer a recusa seletiva de procedimentos (não atender justamente quem mais precisa). O mito da má gestão é perverso porque, segundo ele, todo gestor de hospital deficitário seria um corrupto incompetente. O problema é que 95% dos HUs e Santas Casas do País estão no vermelho. Será que os homens honestos são tão raros assim? Para redimir os tantos profissionais dedicados que despendem suas vidas gerindo essas instituições e acabar de vez com o mito, disse o ministro da saúde, Arthur Chioro: ?Há na opinião pública uma percepção de que o problema da saúde é a má gestão?, ?o subfinanciamento é inquestionável?, ?é impossível, só melhorando a gestão, garantir [...] a saúde da população?.