Opinião
As dores do Velho Chico
No calendário católico, o dia 4 de outubro é dedicado a São Francisco de Assis, padroeiro da ecologia. Foi nesse dia que, há exatamente 514 anos, no Nordeste do Brasil, os portugueses navegaram pela foz de um grande rio, ao qual deram o nome do santo. Desde então, o São Francisco tem sido fonte de riqueza e de vida, mas, atualmente, se encontra condenado à morte. O Velho Chico, como é carinhosamente chamado pelos ribeirinhos, é vítima do desmatamento e queimadas desde a sua nascente, na Serra da Canastra, em Minas Gerais, da poluição na forma de agrotóxicos, esgotos domésticos e industriais, além do desvio de água cada vez maior para projetos de irrigação mal elaborados. A cada ano, o rio tem diminuído perigosamente o seu volume de água e a navegação já não é possível em determinados trechos e em determinadas épocas. O rio pode ser visto como um milagre da natureza, pois corre ao contrário e se estende do Sul mais baixo para o Norte mais alto, devido a uma falha geológica denominada. Isso o torna muito vulnerável, pois a pequena declividade na maior parte de sua extensão, justamente a que recebe poucos afluentes, favorece o desbarrancamento e o assoreamento. O assoreamento provoca anualmente uma perda de 1% da capacidade dos reservatórios. A navegação vem sofrendo revezes por deficiência de calado. Outro sinal alarmante da situação deplorável do Rio é a diminuição da sua vazão. Em muitos trechos, mais parece um córrego. O grandioso projeto de transposição das águas também aparece como uma agravante da situação. Para os críticos, o São Francisco não tem a mínima condição de fornecer os volumes que estão querendo tirar dele para abastecer 12 milhões de pessoas no Nordeste e, ainda por cima, irrigar 260 mil hectares. Atualmente, o rio já irriga 360 mil hectares ao longo de sua bacia e produz 95% da energia consumida na região Nordeste. Somar a isso a demanda da transposição seria o golpe de misericórdia. Uma coisa é certa. Não se pode falar em transposição sem associá-la à revitalização; caso contrário, pode até não haver água nos canais. O São Francisco é patrimônio do povo brasileiro, fonte de vida e de riqueza para milhões de pessoas. Preservá-lo faz-se algo urgente e imprescindível para o futuro do País.