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Opinião

A gest�o das pr�prias limita��es

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É certo que em toda a minha vida fui meio esquivo às festas, mas de vez em quando aparecia em alguma. Mas, nos últimos anos com a progressiva perda da visão tem sido pior. Que me desculpem os amigos, novos confrades da academia, em suas posses ou nos lançamentos de livros, exposições de arte, enfim amigos diletos que nunca me faltaram. Não sei se nesta história logro o fato da perda gradual e não brusca da visão. No fundo é um aprendizado. Reaprendi a distância dos objetos e da mão que me cumprimenta. Contudo ainda é difícil subir ou descer degraus da mesma cor, sobretudo os escuros, assim como as calçadas desniveladas. Razão para ter sido obrigado a frear o passo e, na dúvida, tocar de leve o chão com a ponta do sapato. Em casa é só não trocar os móveis do lugar. Uma mão na parede ajuda a encontrar o caminho às vezes, tarde da noite, até alcançar o interruptor. Mas de tudo que reaprendi, o barbear é o mais interessante. Em vez do espelho é a mão que vai tocando o rosto enquanto o barbeador desliza. Quando termino faço o teste final para descobrir alguma falha. Às vezes só descubro quando já saí de casa. E já nem pergunto mais a ninguém para conferir. Mas como a vida continua, eu tento ir fazendo tudo o que fazia antes. E esta é a parte difícil. Escrevo diretamente no computador, sem olhar o teclado, com a tela aumentada em 180 a 200 com a cara a 20 centímetros de distância. Uso caixa alta nos meus e-mails. Depois, o texto digital é o que me resta. Não dá mais para pegar um livro e ler de cabo a rabo sem cheirar as páginas. Na posse da confreira Yaradir Sarmento, na Academia Alagoana de Letras, foram 14 páginas com letra 26 do meu discurso de recepção. Por isso não estranhe qualquer um, a falta de meu cumprimento na rua, porque o mundo se tornou nublado e fosco. Com a catarata avançando no olho onde vejo menos de 20%, o pavor da cegueira total me impede de fazer a cirurgia. Como é um olho com a retina remendada, com um glaucoma impertinente não sei o quanto iria ver de melhor. A realidade é que estas coisas a gente nunca espera que aconteça com a gente. Durante tantos anos me diverti pintando um rendilhado tão minucioso nos meus quadros. Sempre tive uma habilidade de pegar o pincel sem tocar a tela, conseguindo contornos finíssimos. A última vez que me atrevi à proeza foi quando estive em Lisboa em 1911. Azafamado com a possibilidade investi em tinta, papel e pincéis. O frio de dezembro me obrigou a escolher. E ainda fiz minhas ultimas aquarelas. Elas não eram a mesma coisa, então parei.

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