Opinião
Beto Le�o, uma homenagem
Alberto Leão Maia saiu de Quebrangulo há 66 anos para se tornar Beto Leão, um artista reconhecido nacionalmente. A trajetória desse retirante cultural findou na sexta-feira, 9, quando amigos fiéis prestaram a última homenagem a alguém que se tornou a síntese de todos eles: inovador, revolucionário, iconoclasta, a síntese de uma geração. Fomos amigos desde cedo. Apesar de trilharmos caminhos distintos para atingirmos, por assim dizer, os mesmos objetivos, seguimos juntos ao longo dos anos na direção do que achávamos certo. Sob o clima opressor da ditadura militar nos anos 60, enveredei pela luta política, Beto partiu para a guerrilha cultural. Liderou um grupo de jovens que ousou falar de poesia, música e cinema quando a censura imperava. Sacudiu Alagoas com sua criatividade que atingiu o ápice com o Festival de Verão de Marechal Deodoro, em 1971, uma invenção de Leão, um choque para a sociedade conservadora da época. Deixei Alagoas nos anos 70, Beto também. No Sul do País, seu talento emergiu. Foi ator em filmes como ?Joanna Francesa? e ?Xica da Silva?, e em novelas de TV como ?Lampião e Maria Bonita?. Destacou-se também como cenógrafo, produtor e diretor de arte em inúmeras novelas e seriados (?Rabo de Saia?, ?Kananga do Japão?, ?O Tempo e o Vento?, ?Quarup?). Em paralelo continuava pintando e compondo, com acentuado grau de qualidade que surpreendia em função de tantas atividades paralelas. Voltei a Alagoas, Beto também. Quando assumi o governo do Estado pela primeira vez, fiz questão de convidá-lo para ser o secretário de cultura. Os artistas aplaudiram. Era a pessoa certa no lugar certo. Rompemos o paradigma da cultura institucional, de gabinete. O talento múltiplo de Beto permitia vislumbrar novos rumos: um novo olhar para a cultura de um Estado então vítima de desacertos políticos. Precisávamos resgatar a auto-estima do alagoano e com participação de Beto Leão criamos o projeto Alagoas de Corpo e Alma, que itinerou pelo Brasil mostrando aspectos da nossa cultura, arte, gastronomia. Beto foi responsável por uma parte importantíssima dentro do projeto, o espetáculo ?Graciliano, um brasileiro?. Ali, voltou a ser cenógrafo, figurinista, iluminador e criador da trilha sonora; um artista completo. A morte de Beto Leão é uma perda para Alagoas, mas seu talento inovador deve permanecer inspirando novos artistas, inquietos como ele, que não se conformem com o que parece definitivo: há sempre a possibilidade de mudança. Beto estará sempre conosco.