Opinião
As verdades e as mentiras na Medicina
Duas obras da literatura apresentam a mentira e a verdade na Medicina: uma, é A Saúde dos Doentes do argentino Julio Cortázar, onde conta a patética história de um jovem que vem morar em Recife e ali morre. Além da dor da perda, a família defronta-se com um dilema suplementar: a mãe do falecido é cardiopata grave e eles não têm como lhe dar a notícia. Decidem então, manter-lhe a ilusão do filho vivo e passam a forjar cartas em seu nome, como se o rapaz continuasse vivo. Com o tempo, o ardil se torna tão convincente que até a própria família acredita nele. Repentinamente, a mãe morre. Cortázar encerra o conto com a família enfrentando um último dilema: como dar ao jovem de Recife a terrível notícia da morte de sua mãe? O outro autor é Liev Tolstói, criador de Guerra e Paz e Anna Karenina, que era médico e também escreveu textos mais curtos e provavelmente a novela mais perfeita da literatura, uma história que deveria ser lida por todos, principalmente por médicos e estudantes de Medicina: A Morte de Ivan Ilitch. Nela, embora se saiba que terminará com a morte do eminente membro do Judiciário de São Petersburgo, o mais importante é a vivência da enfermidade que, para o arrogante Ivan Ilitch, constituir-se-á num suplício pior do que a própria agonia. Gravemente doente, Ivan consulta médicos que o atendem de forma distante e autoritária, a tal ponto que, numa das consultas, ele se sente como réu diante de um tribunal. Os próprios colegas e familiares também o tratam de maneira indiferente, quase hostil. A única pessoa que o ampara é um empregado, camponês ignorante, que se compadece do sofrimento do patrão e o ampara. Ivan descobre que sua vida foi despida de sentido e que suas relações com outros seres humanos eram superficiais. Com 40 anos exercendo a Medicina, em uma especialidade onde estamos constantemente lidando com pacientes graves, com suas vidas sendo ameaçadas, quando vejo um paciente chegar com a família ou amigos lhe dando amparo e suporte, sinto-me gratificado. É inaceitável quando as autoridades usam artifícios para encobrir as mazelas de nosso sistema de saúde que tanto sofrimento causa à nossa população. A única forma tolerável de mentira na Medicina é quando ela é piedosa com um enfermo, evitando-lhe maior sofrimento perante uma realidade insuportável e demasiadamente perversa. Nossa missão é curar quando possível, aliviar a dor e evitar o sofrimento, sempre.