Opinião
Territ�rio perigoso
Pesquisa realizada pela organização TIC Kids Online Brasil mostra que, ao navegar pela internet, 37% das crianças e adolescentes usuários da rede identificaram alguma forma de discriminação no ambiente virtual. O percentual equivale a 8,8 milhões de jovens entre 9 e 17 anos. Ao todo, o estudo aponta que existem 23,7 milhões de internautas na faixa etária, equivalente a 80% dessa parcela da população. Os atos de intolerância atingiram, diretamente, de acordo com o estudo, 6% das crianças e adolescentes usuárias da internet. A visualização de conteúdos ofensivos foi maior entre aqueles com pais que concluíram ao menos o ensino médio (43%), entre 15 e 17 anos (51%) e pertencentes as classes A e B (46%). O preconceito por raça ou cor foi a forma de discriminação mais identificada pelos jovens, encontrado por 23% daqueles que usam a internet. Ações agressivas relacionadas à aparência física foram vistas por 13% deles, por gostar de pessoas do mesmo sexo por 10% e por ser pobre por 8%. São mencionados ainda preconceito religioso (7%), pelo local de residência (4%) e contra mulheres (3%). Não é de hoje que a internet, que deveria ser o caminho da disseminação das informações transformadoras, tem sido canal de propaganda da violência moral, étnica, sexual e simbólica. Segundo dados da ONG Safernet, entre 2010 e 2013, aumentou 203% o número de páginas denunciadas à ONG por divulgar conteúdos neonazistas, xenófobos, homofóbicos, de intolerância racial ou religiosa, ou por fazer apologia e incitação a crimes contra a vida. No Brasil, a intolerância de maior audiência na internet é a política, seguida da misoginia, preconceitos relacionados a deficiência, aparência e raça. Escondidas no anonimato que as redes sociais permitem ou no distanciamento que promovem, algumas pessoas se sentem à vontade para expressar todo tipo de agressão e difusão de mentiras, ferindo a honra, a dignidade de outras pessoas. Embora existam mecanismos legais para combater esse tipo de prática, é necessário que os próprios usuários conheçam bem esses mecanismos e tomem a iniciativa de denunciar os perfis e as postagens inapropriadas. É preciso impedir que um instrumento tão importante e revolucionário como a internet se torne um território não recomendável para pessoas de bem.