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Opinião

Medo dos mortos

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Nos anos 60 praticamente todas as cidades de Alagoas com população acima de oito mil habitantes tinham a sua sala de cinema. Às vezes até mais de uma, como era o caso de Pão de Açúcar. O pequeno e improvisado clube social e o cinema eram os únicos espaços de lazer para as comunidades do município. Um simples galpão virava ambiente de festa com a orquestra dando ritmo aos dois pra lá, dois pra cá, para o deleite dos apaixonados. Meu pai, com a sua simplicidade de servidor público dedicado, tinha muito zelo com os filhos e a preocupação de nos proporcionar um pouco de lazer nos finais de semana. Se um time de fora vinha jogar na cidade, lá íamos nós de mãos dadas em direção ao campo torcer pelo Jaciobá. Time de craques como o goleiro João Jorge, Irineu, Murilo, Romeu, Bobito e tantos outros selecionáveis do sertão. Na santa inocência da infância, duas coisas me angustiavam fortemente. Para assistirmos uma ?fita? no cinema, a primeira preocupação do meu bondoso pai era pesquisar se a projeção tinha cenas de briga. Não porque quisesse que não víssemos imagens agressivas, empurrões, socos e tiros no filme. O nó da questão era que, quando isso acontecia, eu entrava literalmente em pânico, encolhendo-me em desespero sob a cadeira. Penso que a rejeição em ver violência na infância, mesmo no cinema, leva o adulto a nunca se transformar num ser violento. Entre desagradáveis emoções infantis, a pior de todas era saber que alguém tinha morrido e se esse morto fosse um conhecido, o sofrimento perdurava por pelo menos uma semana. As noites eram longas e tortuosas! Luz apagada e ficar sozinho, impossível, parecia estar vendo o fantasma do falecido. Lembrei-me desses episódios para dizer que os mortos não se transformam em zumbis, não são fantasmas, não assombram a ninguém, como imaginamos quando criança. Por isso sentimos tantas saudades e lhes oferecemos muitas orações neste Dia de Finados. Saudades e minhas homenagens aos muitos familiares de gerações passadas e presentes que nos deixaram eternas e inesquecíveis lembranças. Dos bons amigos que se foram e nos fazem falta, vários deles muito precocemente! Inclusive alguns daqueles craques do Jaciobá que nos deram tristeza nas derrotas e muito mais alegrias nas vitórias, e agora descansam na eternidade.

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