Opinião
O caudal
O Brasil possui uma multidão ávida por mudanças estruturais. Que desde os tempos coloniais não para de crescer. Que é contra todo e qualquer tipo de acefalia. Que ainda não transformou suas inúmeras e diversificadas ferramentas de trabalho em artefatos apropriados para lutar contra tudo o que de errado há porque falta quem a guie e sobra quem a engane. Uma multidão constituída por um sem número de excluídos e, também, marginalizada por desejarem um País diferente do que aí está, onde em cada coração e em cada mente está gravada a lição de que enquanto houver injustiça é preciso, sem medo, lutar com bravura e coragem e se rebelar contra qualquer tipo de ?tirania?, seja ?branca ou vermelha?, pois todos nascem com o sagrado direito a vida e a liberdade e de viver num País socialmente mais justo. Esta multidão não mais admite que ninguém se comporte como se fosse ariano porque sabe que nenhum ser humano, seja quem for, possua a riqueza que possuir, está acima do bem e do mal ou é inatingível. Por isto, se líderes surgirem, está disposta a se unir, formar um só corpo e, sem nenhuma piedade, marchar para derrubar todos aqueles que a engana e prejudica, pois só assim pode existir um novo comando, uma nova ordem, onde a riqueza e o poder tenham sua origem na honestidade, não na corrupção; no trabalho digno e salário justo, não na humilhação e na miséria alheia; seja um patrimônio de todos, não um privilégio de poucos. Este interminável caudal, que ontem iniciou nas senzalas, aumentou exponencialmente porque hoje, não há distinção de classe, os que dele fazem parte. Não mais admite que se troque liberdade por submissão e conivência, se transforme pobre em miserável e miserável em defunto; não mais tolera sofrimentos de ordem física e psicológica: deseja lutar para conquistar a cidadania plena. Não mais aceita, como outrora, ser comprado, escravizado e, muito menos, enganado. Pessoas não se compram: não são mercadorias. Não se escravizam: não são animais selvagens. Não se deixa que morram como indigentes: assegura-se, fornecendo-lhes um trabalho digno, suas necessidades básicas. Pessoas se conquistam através da educação, do respeito e da moralidade. Sua esperança é intocável, não pode morrer, pois sendo alimento do espírito, representa a materialização de seus sonhos, isto é, a fé em vindouros dias melhores. Sabemos que a fé em vindouros dias melhores significa ?ensinar a pescar e não dar o peixe?. Portanto, basta retirar as ?piabas?, ?carás? e ?traíras? que ?seguram? esse caudal e não demorará a termos a enxada substituída pela guilhotina, o facão pela espada, a faca por uma baioneta e o aparente pacifismo por um ódio desenfreado que poderá transformar este País numa gigantesca poça de sangue.