Opinião
Pesadelo sem cor
A velha pendenga entre capitalismo e socialismo segue norteando o debate político. O resto do mundo, contudo, já superou a discussão sobre geração de riquezas, onde o livre mercado se mostrou imbatível. A controvérsia se concentra hoje nas diferentes formas de dispêndio dos bens produzidos. Os países-sedes de grandes corporações, como EUA, Inglaterra e Japão, podem ter as maiores economias, mas não têm as melhores qualidades de vida. O topo do ranking do bem-estar fica com países nórdicos, que souberam equilibrar negócios nas mãos da iniciativa privada, com a gestão eficiente pelo Estado de serviços públicos gratuitos. Ou seja, a fórmula do sucesso é produzir no azul e gastar no vermelho. A esquizofrenia fisiologista brasileira conseguiu, porém, a façanha de gestar um Estado exatamente inverso a esse. Mantendo o rumo errático traçado historicamente, o governo federal acelerou em direção ao precipício das cores trocadas, com crescentes graus de estatização da produção e liberalismo nos gastos. Num momento de crise, um governo liberal tenderia a preservar o bolso dos contribuintes. Aos ver os cofres secarem, manteria os auxílios diretos e os ganhos reais na massa salarial e deixaria o terror se instalar nos serviços públicos. Já um governo de esquerda até contingenciaria os ganhos de renda individuais, mas não admitiria tirar um real sequer da saúde e da educação. Pois a crise chegou, e qual foi a decisão do partido? A política de valorização do salário mínimo, das pensões, dos auxílios e dos incentivos ao consumo foi mantida, enquanto os estudantes e, principalmente, os enfermos foram jogados aos leões. O corte de verba para a saúde aumentará ainda mais o caos já instalado no setor. Em Maceió, a redução dos exames de diagnóstico, o fechamento de leitos para cuidados com pacientes terminais de câncer e a redução em 50% dos recursos para cirurgias pediátricas são apenas algumas das consequências terríveis que a população carente terá de suportar por causa da diminuição dos repasses federais. Nos momentos ruins, é preciso fazer escolhas difíceis. O governo precisou optar entre manter a ajudar à indústria automobilística e os carnês das TVs de plasma sendo pagos ou garantir o mínimo de decência no cuidado dos desvalidos. O termo neoliberal define perfeitamente a decisão tomada.