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Opinião

Este mundo louco

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Vivi entre loucos desde os 12 anos de idade. Habituei-me a ter longos diálogos com esquizofrênicos delirantes, muitas vezes achando que suas conversas tinham pé e cabeça. Tive um professor de matemática, esquizofrênico de carteirinha, que me ajudou muito nos exercícios do Ary Quintela. Naquela época, minha missão era olhar o andamento de ?frugalidades administrativas?, como, por exemplo, se as camas dos pacientes estavam com os lençóis limpos, se havia resquícios impublicáveis nas latrinas, se os chuveiros estavam funcionando, se as lâmpadas acendiam... Cresci. Sem muitas surpresas, reconheci que o mundo fora dos muros do hospital psiquiátrico tinha uma lógica parecida. Certa ocasião, reclamei na Justiça o cumprimento de um acordo registrado em cartório. Os caras negaram-se a cumprir e, por prestar queixa, fui acusado pelos criativos advogado de defesa de ?extorsão? e de ?tentativa de enriquecimento ilícito?. Mataram dois dos meus filhos. Recebi manifestações de conforto, orações de conhecidos e anônimos. Um sujeito que mal conhecia, superou todas as expectativas. Em carta que mais parecia o ?Manifesto de 1848? prolatou que eu deveria resignar-me. Ele gostaria de entender a minha dor. Minha família, segundo o imbecil, teria sido vítima da ?luta de classes?. A Psiquiatria Municipal, por seu turno, passaria a ser comandada por pessoas incapazes de distinguir um neurótico de um psicótico. Ao denunciar o absurdo, fui apunhalado por amigos e inimigos. Virei ?Seu Ronald?. Quarenta e três anos de magistério jogados no lixo. Céus e infernos ergueram espadas e urros. Até anjos disformes e mungangueiros ergueram seus bastões. Temi a fogueira da Inquisição, o nó no pescoço, a lâmina da guilhotina, ?El Paredón?, o Território Gulag. As mais doces palavras foram ?louco? e ?surtado?, como se ser louco fosse uma ofensa moral. Ou seja, o pessoal que se diz ?expert? em saúde mental, quando quer detonar alguém, chama de ?louco?. Resolvi relaxar. Fui para Ipioca, onde me refugio há 35 anos. De lá, fiz de conta que era um miliardário (vocês sabem, de tanto lhe chamarem de manco, você termina amputando uma perna). Telefonei para um dos hotéis mais caros de Nova Iorque. Vagas, nem pensar. Dilma, familiares e outros do mesmo naipe andavam por lá, gastando o nosso dinheiro. Enquanto isso, fanáticos achavam um absurdo espeluncas do litoral estarem repletas de alagoanos.

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