Opinião
Passeios Profundos
Em tempos de crise, passamos por grandes revoluções. Sempre na história da humanidade, crises existiram e existirão, mas nem sempre serão encaradas da mesma forma. Cada nova ampliação de consciência gera uma evolução. Evoluções, para se manterem em movimento, precisam de revoluções. A meu ver, as principais são as internas. Todo dia, algo em nós é provocado pedindo uma mudança de direção. Nem sempre atendemos aos sussurros vindos de nossas profundezas, até porque dar ouvidos a tais murmúrios é trabalhoso e exige tempo disponível. Só que sempre chega uma hora que os chamados se intensificam e somos tomados por uma força que não tínhamos consciência de sua existência. Um bom exemplo para solidificar tais pensamentos é imaginar situações em que ?perdemos as estribeiras?. Por mais esquentada que seja a pessoa, leva um tempo até uma atitude enérgica ser realizada. Toda repetição de fatos inconcebíveis gera stress. O stress é um aviso orgânico de que algo dentro de nós está insuportável. Esse aviso é necessário em situações de perigo e perseguição. Historicamente levamos essas defesas em nossa vida para todo tipo de aviso interpretado com as características citadas anteriormente. O ser humano moderno aprendeu a ?engolir? esses alertas em prol de um bem estar social. O aviso persiste. Persiste sussurrando. Incomoda. Incomoda até nos rendermos. Algo em nós quer ser rendido. Nos rendemos. Tomamos atitudes drásticas. Só depois percebemos o que acabamos de fazer. Vem o arrependimento de não ter sustentado mais um pouco. Deixamos a cruz cair. Ou será que era a cruz que queria ser solta? É o outro lado que tento enxergar. O lado de que não somos tão imponentes ao ponto de fabricar nossa própria evolução. Ela existe e é quem nos direciona. Em tempos de crise, começamos a sentir cada vez mais nossa realidade como insustentável. Querendo ou não, percebemos e entramos em contato com nossas fragilidades. Não dá mais para por nada debaixo do tapete. O tapete foi puxado e nós caímos. Caímos em tudo que estava debaixo dele. A queda nos coloca diante de nossas próprias sujeiras. Nada mais pode ser escondido; está aparente demais. Quando essa hora chega, é preciso separar cada coisa. Aprendemos ou reaprendemos a lidar com nosso lado mais obscuro. Ressurgem nossos heróis. Apesar de dolorosas, nossas crises nos tornam cada dia mais humanos, fazendo com que enxerguemos nossos lados esquecidos; que resgatemos nossa órbita. Sofrer com dignidade é poder (r)evoluir.