Opinião
Examinando a ignor�ncia m�dia nacional
Creio que o Enem errou ao misturar violência doméstica com Simone de Beauvoir. O feminismo de Simone lutava contra a discriminação em contextos civilizados. Tem tudo a ver com o machismo residual nos costumes de um país que até 2001 permitia ao marido ?devolver? a esposa se ela não fosse virgem. Os números da violência contra a mulher no Brasil, com 53 mil casos denunciados por ano, porém, são de outra natureza. Eles têm mais a ver com algumas das piores violações aos direitos humanos cometidos ao redor do globo. Na maior parte do mundo árabe, apesar da economia moderna, as mulheres ainda são proibidas de sair de casa sozinhas e de dirigir. As casas devem ter entradas separadas para os gêneros. Na China, a política de filho único gerou o maior infanticídio da história. É impossível calcular quantos bebês meninas foram mortos, mas o excedente de 40 milhões de homens pode dar uma pista. O excesso de homens tem consequências terríveis. A falta de esposas é tão grande que mulheres pobres de países vizinhos como o Nepal e a Coreia do Norte são traficadas e vendidas como escravas. E as coisas pioram ainda mais no oriente médio. Em países como o Afeganistão e Paquistão, crimes de honra, casamentos forçados e estupros são comuns e 90% deles são praticados dentro de casa. A menina que se atrever a estudar corre o risco de ter seu rosto desfigurado por um ataque com ácido. Menos de 15% das jovens até 17 anos são alfabetizadas nesses lugares. Mas nada é pior que do que nascer mulher em certas regiões da África. Em países como o Mali, a Somália e principalmente o Congo, as meninas rezam por um casamento arranjado, onde sofrerão humilhações e violências diárias. Isso porque a alternativa é fica solteira, o que significa viver sob risco de castigos bárbaros como amputações e apedrejamentos. Nesses países as guerrilhas fazem sensos e elaboram ?listas de espera? para as punições, pois eles não dão conta de torturar tantas mulheres ao mesmo tempo. E ainda resta a mais atroz e representativa sevícia aplicada às mulheres, a mutilação genital. O ódio dos patriarcas ao prazer feminino é tão grande que eles arrancam ao nascer, com faca cega e sem anestesia, as genitálias das crianças. Em algumas partes da África até 95% das mulheres adultas são mutiladas. O Enem pode não ser perfeito, mas claramente escolheu um tema extremamente relevante para a redação.