Opinião
Quando o sol se p�e...
Após os sessenta anos, vamos nos acostumando a brincar com a idade, valendo-nos de uma suposta juventude que só existe mesmo na nossa cabeça. Como o discernimento ainda nos mantém, ponteiros firmes, logo vamos nos adaptando a um novo espaço reservado aos velhos. Os filhos começam a se arriscar invertendo a ordem dos fatores. Querem mandar em nós. Quando contestados e convencidos de que ainda não podem invadir a nossa autonomia, olham para dentro de si e desistem. Não querem ser dirigidos por filhos ou filhas, no futuro. Acostumados a administrar e saber tomar decisões sentimos uma certa alegria ao provar que ainda existe muito talento para realizar empreitadas, antes tão comuns na nossa vida. Como o marido nunca se envolveu com reformas, aquisições ou material de construção bem como contrato de operários ou demissões, fui à frente. Sempre! Adorava quando tudo terminava. Era chegada a parte mais dispendiosa, ou, da decoração. Gasta-se muito, quando o bom gosto prevalece. É mesmo para chorar ouvir o marido dia e noite dizendo que o dinheiro ia escoar pelo ralo... Endurecendo e de ouvidos mocos vamos à frente sem saber direito se as previsões se concretizarão mesmo convencida de que o ?reclamante? é pessimista por natureza. Nesse meio tempo, ainda estamos vivendo como adultos, donos de si. É uma fase boa, como se o sol estivesse brando e a tarde fresca. Afinal, arrumamos uma casa para a chegada dos filhos, já na Universidade, longe de nós. Tudo é alegria quando chega dezembro, com as férias da Faculdade. A casa brilha, cheira a flores, bolo no forno, paredes pintadas, janelas novas e envernizadas e sol entrando, brisa de dezembro soprando. É tempo de festa que atrai os amigos nossos e deles. É inenarrável nossa alegria por vê-los inspecionando as modificações e embelezamento da casa. Sentem-se quase como autores da proeza. O sol amanhece mais brilhante, cúmplice da nossa alegria, resto de juventude aflorando. Mas o tempo passa, a casa se esvazia, vêm os casamentos. Uns dão certo outros não, noras ?sábias? desprezam conselhos e se dão mal. Atropelam nossa vida tranquila, desconhecendo que logo surgirão candidatas. Quando menos se espera, o sol já se pondo em nossas vidas surge uma netinha que acendeu as luzes de um sol poente. A primeira em quatro netas que me abraça o pescoço e tasca-me beijo no rosto e chamando o avô de ?Lobo?. Isto após ouvir a história de chapeuzinho vermelho. Nunca pensei em uma neta tão viva e feliz, logo agora que nosso sol se põe. Mas é maravilhoso pensar que ela existe!