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Opinião

Crise de identidade

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Não sei se existe atualmente algum tipo de celeuma ?séria? sobre ?doutor? e ?seu?. Morei em São Paulo quatro anos. Trabalhei inicialmente no Hospital São Camilo. O diretor médico era tratado por ?professor?? prof. Mário Degni. Até as baratas do hospital o tratavam assim. Não era nenhum favor. O homem, com menos de 35 anos, concorrera à Cátedra em Porto Alegre e tinha sido coroado. Ensinou poucos anos, mas o título ficou. Depois do São Camilo, fui aprovado num concorrido concurso para residente do Hospital do Servidor de São Paulo. Mais velho um ano desde a época do São Camilo, dentro do Servidor era tratado por ?doutor?. Algumas vezes fiquei acanhado. Antigas e competentes enfermeiras, assistentes sociais e profissionais de outras categorias, mais velhos, insistiam com esse tratamento, apesar da recusa. Eles me chamavam de doutor sem submissão. Não se humilhavam. Eles sabiam o quanto valiam. Insistia em vão. É que chega um momento em que a gente vê que isso nada acrescenta. Em mim, esse sentimento brotou precoce. Ficava mais feliz quando o dono da lanchonete e os garçons do Bexiga me tratavam por você, mesmo sabendo que eu era médico residente de um dos melhores hospitais de São Paulo. No Hospital do Servidor havia vários professores, livres-docentes e doutores com doutorado. Salvo os professores, nunca observei um doutor ter melhor desempenho que os médicos sem doutorado. Dava a impressão de que suas teses não iam além do diploma na parede do consultório. Quando entrei na Universidade (Ufal), tinha menos de 30 anos. Inseguro nas salas de aula, meus primeiros alunos tinham quase a minha idade. Eu acho que minha cara de menino estimulava o íntimo ?você? entre os discentes. Mas se eu precisava de alguma coisa na burocracia, nunca deixei de ser tratado por ?professor?. Hoje era para viver uma espécie de crise de identidade. Afastei-me da Escola de Ciências Médicas de Alagoas, onde era tratado por professor. Aposentei-me da Ufal. Joguei a toalha no Ministério da Saúde onde fui médico 38 anos. Trabalhava com o povão. Nunca fui desrespeitado. Hoje, ninguém vai ao meu consultório procurar o ?Seu? Ronald. Nunca ouvi ninguém dizer que foi operado de um tumor cerebral ou de um aneurisma pelo ?Seu? Ronald. Em compensação, chego no CRM-AL, mesmo depois de identificado é ?Seu? Ronald pra lá, ?Seu? Ronald pra cá.

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