Opinião
Conquista amea�ada
Análise divulgada ontem pelo Ipea, com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2014, mostra que o Brasil conseguiu reduzir a extrema pobreza em pelo menos 63% entre 2004 e 2014. De acordo com o Ipea, mesmo em 2014, quando começaram a ser sentidos no País os primeiros efeitos da crise econômica mundial, o Brasil permaneceu em ?franco processo de mudança social?. De fato, nesses dez anos, o País experimentou o crescimento real da renda do trabalhador e a diminuição de desigualdades, o aumento da escolaridade e das condições gerais de vida dos brasileiros, além da redução das desigualdades entre negros e brancos, mulheres e homens, trabalhadores rurais e urbanos. Um contingente de brasileiros viu-se integrado ao mercado consumidor, gerando uma explosão no varejo. O Brasil se transformou, por assim dizer, em um balizador para outras economias emergentes por ser exemplo de país capaz de gerar crescimento com redução das desigualdades sociais. Entretanto, não se pode deixar de observar que os mecanismos utilizados nos últimos doze anos para reduzir a desigualdade social no Brasil são frágeis e, por isso mesmo, acabaram sucumbindo diante dos ajustes econômicos que vêm sendo aplicados pelo governo desde o início deste ano para tentar consertar erros passados. Os fatores que proporcionaram essa conquista foram a redução do desemprego, o aumento da formalização da mão de obra, o acesso ao crédito, a valorização do salário mínimo e as políticas compensatórias de renda como os pilares do processo de redução da desigualdade nos últimos dez anos. Desses, apenas esses dois últimos se mantêm a duras penas. As políticas compensatórias de renda, como o programa Bolsa Família, apesar de malvistas por uma boa parcela da sociedade, cumprem um papel importante para atender a camada mais pobre da população brasileira. Não são, porém, suficientes para reduzir a desigualdade social no País a níveis mais aceitáveis. Portanto, é urgente que o Brasil retome o caminho do crescimento para não sofrer um trágico retrocesso. O ano de 2015 termina marcado pela forte recessão e ainda pela crise política, que contamina o cenário econômico. Que 2016 traga, de fato, novas perspectivas para a nação.