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Palavras e l�grimas

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GILBERTO DE MACEDO * O Homem é ser sumamente complexo e múltiplo, sobretudo na sua expressividade de linguagem. Assim acontece, entre outros casos, com a palavra- forma semântica- e com a lágrima- fenômeno psicofisiológico. Palavras e lágrimas são maneiras de comunicação como, aliás, tudo que é humano. As palavras expressam idéias, acompanhadas de comunicações afetivas, alegres, ou tristes. As lágrimas, especificamente, denotam sentimentos particulares de tristeza, sugerem imagens de pesar. Daí a frase, bem a propósito bem a propósito, de Cowley: ?Há palavras que choram e lágrimas que falam.?. São palavras essas que, ao ser enunciadas, na fala ou na escrita, logo comovem, despertando a tristeza. Assim, palavras como: adeus, mágoa, desprezo, nunca mais, tudo acabado, morte, jamais, pêsames, e outras de semelhante teor. Conforme o momento e as circunstâncias têm profundo significado de desgosto. ?Palavras que choram?, e fazem chorar. Palavras de desamparo. E lágrimas que, mesmo no absoluto silêncio, deslizando lentamente pela face lívida e imóvel, de uma pessoa?, falam do íntimo estado afetivo de aflição na representação de distanciamento, perda, ruptura, saudades, e outros semelhantes estado de alma. Sem se acompanhar de qualquer pronúncia, ou escrita, as lágrimas expressam tudo à respeito das tristezas que simbolizam. ?Lágrimas que falam...? A palavra - falada ou escrita - quando sincera, é a forma mais atual de revelação pessoal. Do pensamento e dos sentimentos. No caso em apreço, deste breve comentário, ela ?chora? diante da realidade do mundo atual, pelo que de percebe no dia- a- dia, e das expectativas imaginadas. É da razão de Goethe dizer: ?Neste mundo há muitas palavras e pouco eco.? Sim, palavras não correspondidas pelos ouvintes nem atendidas, pela falta de sincera convivência autêntica. Eis que as palavras também refletem a sociedade, que é, hoje, sociedade triste. Sociedade que ?chora?. Isso acontece porque é através das palavras que as idéias se concatenam, adquirem significação, inteligibilidade. Assim como dizia, com todo sentido, o filósofo Isócrates: ?A palavra é o fio de ouro do pensamento? Conforme o seu uso correto, a palavra diz tudo, até ?chora?. Sem a palavra o pensamento não se estrutura não se organiza para a ação humana, mas se dilúi , sem adquirir forma. Esvazia-se de significado. Na palavra sincera está o Homem. Palavra verdadeira é espontânea. E as lágrimas, como exposição de um sentimento triste, ?fala?, diz o que existe, apreendida pelos circunstantes. . Como dizia na clássica ?Eneida, o pensador Virgílio:? Há lágrima para os nossos sentimentos, e o nosso destino comove a alma dos outros. ?Pois que, com completa o espanhol Matias Aires ?Pela lágrima se explica a alma, pelas palavras muitas vezes se explica o engano: quem chora certamente sente, quem fala só se explica.? É que as lágrimas são itinerantes sinceras, pois ?falam? sobre os estados sentimentais da pessoa. Os sentimentos não mentem Assim, temos as lágrimas mais pungentes que falam da saudade e da tristeza como a mais aflitiva que é a do abandono a da criança que não recebe amor, principalmente dos pais , causando-lhe frustração por toda a vida. Essa lágrima da criança é a fala mais veemente de tormento. E ainda as lágrimas de amante desprezado; e lágrimas dos humilhados e injustiçados, que falam protestando. Tudo isso é manifestação de linguagem em sua infinita complexidade. São enigmas e revelações da Natureza Humana. (*) É MÉDICO

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