Opinião
Li��es da trag�dia
Há um conhecido ditado que diz que ?brasileiro só fecha a porta depois de roubado?. Pois bem, com o País ainda acompanhando consternado o desdobramento da tragédia ocorrida em Minas Gerais, o plenário do Senado aprovou ontem a criação de uma comissão temporária para trabalhar na avaliação da Política Nacional da Segurança de Barragens e do Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens. No dia 5, o rompimento de uma barragem de rejeitos sólidos da mineradora Samarco ? controlada por duas gigantes mundiais, a brasileira Vale e a anglo-australiana BHP Billiton ?, na região de Mariana, deixou um rastro de morte, destruição e degradação ambiental não só em Minas mas também no Espírito Santo. O acidente é tão grave, que ainda não dá para mensurar totalmente os danos causados às populações dos dois estados. Até o momento são 12 mortos, além de desaparecidos e centenas de desabrigados. Milhares de pessoas ficarão sem empregos. Pescadores, comerciantes, pequenos agricultores, que já sofriam com a crise hídrica, agora serão vítimas da lama. A tragédia deixa à mostra a situação de absoluta insegurança hídrica do Brasil se encontra. Barragens de dejetos são locais onde ficam depositados os restos, as impurezas e os produtos químicos utilizados nos processos de mineração. São o equivalente aos lixões ou aterros sanitários nas grandes cidades. Por isso, parece inconcebível autorizar a instalação de algo tão perigoso rio acima de onde dezenas de cidades retiram água para o abastecimento de milhares de pessoas. Somente em Minas Gerais, são cerca de 500 barragens desse tipo. A ausência de um plano de contingência deixa evidente o descaso das diferentes instâncias envolvidas. É preciso responsabilizar e autuar com rigor todos os envolvidos, seja na esfera privada seja na pública, e mobilizar diferentes setores da sociedade para construir segurança hídrica e ambiental no Brasil. Evidentemente que o País precisa do setor mineral, mas o interesse econômico não deve se sobrepor aos interesses da população e à proteção ao meio ambiente. Já que o dano foi feito, que pelo menos se aproveite a oportunidade para rever toda a legislação, melhorar a fiscalização e endurecer as obrigações e as penalidades para as empresas.