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Opinião

Os tiros sa�ram pela culatra

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Logo após os novos atentados em Paris, o jornal satírico Charlie Hebdo publicou mais um de seus controversos cartuns. Nele, um personagem toma Champagne, mas o líquido escorre de seu corpo por entre buracos de bala. O desenho é acompanhado pelo texto: ?eles têm as armas e o ódio, mas só nós temos o Champagne?. O terrorismo é injustificável, dizem alguns. Outros já acham que ele é ao menos entendível, uma vez consideradas as intervenções militares ocidentais no oriente médio, que remontam até a primeira guerra. Outros mais auspiciosos lembram que antes da aliança vencedora dividir os territórios de forma arbitrária, os povos árabes também não viviam em comunidades harmônicas, e sim sob o julgo do terrível Império Otomano. Alguns teorizam que se seguirmos a linha do tempo das justificativas para as barbáries, chegaremos até as cavernas. Independente de haverem ou não causas válidas para as violências, as consequências de certo existem. Correta ou não, a intervenção americana no Iraque provocou um vácuo de poder que levou a o surgimento do Estado Islâmico (EI). Isso é fato. Todas as intervenções militares, justas ou não, tem desfechos inesperados. A guerra ao terror, pós onze de setembro, não só bagunçou ainda mais a região mais instável do mundo, como ajudou a quebrar a economia dos EUA. Ficou aparente que os conflitos terrestres amplos simplesmente não são mais viáveis no mundo democrático contemporâneo. Vide a relutância da França em lançar ofensiva similar contra o EI. Voltando a charge do jornal francês, como interpretá-la nesse contexto? Como de costume, muitos apedrejaram os humoristas. E as famílias das vítimas? Pensaram muitos, eles não têm o direito de tripudiar da desgraça alheia, disseram outros. O ataque terrorista ao próprio Charlie Hebdo, 10 meses antes, porém, gerou também seu desfecho inesperado. Agora o periódico está imune a represarias dessa natureza. Seus membros também foram cravejados por balas e ninguém mais do que eles pode afirmar que conhece a dor dessa perda. Dessa forma, os Jihadistas acabaram por fortalecer o poder do periódico francês para zombar a vontade e ratificar os valores do iluminismo, verdadeiro e maior inimigo de todos os radicais. Muitos querem matar nossa liberdade, às vezes com pequenos projetos de lei mal disfarçados, mas nós, que temos champagne correndo nas veias, lutaremos até a morte.

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