Opinião
Lama�al de uma trag�dia
?Da lama ao caos, do caos a lama?. O verso é do artista pernambucano Chico Science morto há alguns anos, responsável por uma revolução musical. No movimento que criou ele fala do mangue e de suas impressionantes ?esculturas de lama?, homens enfiados na terra em busca de caranguejos, imagem forte: é miséria, mas é vida. Há impressionantes esculturas de lama em Mariana (MG) e ao longo do Rio Doce, mas vida não há mais. A tragédia, que deixou 11 mortos e 12 desaparecidos há duas semanas em Minas Gerais, parece não ter fim; ceifou vidas, matou a flora e a fauna e envenenou um rio considerado sagrado para os povos indígenas, e deve provocar sequelas sociais irreparáveis. O governo federal já reúne esforços para apoiar Minas Gerais. A empresa Samarco, que assumiu a culpa pelo rompimento da barragem e pelo consequente ?mar de lama?, além da multa milionária que recebeu, vai ter que se responsabilizar também pelo destino das pessoas. O que estarrece e entristece é que o próprio governo calcula que levará mais de uma década para que a região se recupere. Mariana é mais uma tragédia a nos ensinar lições, assim como ocorreu com acidente com o Césio-137 há 28 anos, em Goânia (GO). Uma cápsula radioativa deixada no lixo e aberta por engano provocou mortes e contaminou centenas de pessoas ao longo dos anos. Houve processo e promessas de indenização, mas até hoje as vítimas reclamam da omissão do governo. Ficaram entregues à própria sorte, morrendo aos poucos, uma tragédia silenciosa que também parece não ter fim. Entregues à própria sorte parecem estar os familiares dos 242 mortos na Boate Kiss, tragédia ocorrida em janeiro de 2013. O processo se arrasta, não há culpados, não há indenização. O desastre que comoveu o mundo caiu na vala do esquecimento e a onda de indignação que moveu o Brasil, com promessas de que cada casa de shows País afora seria periodicamente vistoriada, esvaiu-se. Tropeçamos em tragédias, mas possuímos a capacidade de nos erguermos e seguirmos em frente. Contudo, precisamos não apenas caminharmos a esmo. Precisamos pavimentar nossa trajetória com atitudes preventivas, que impeçam que tais fatos aconteçam, e punitivas, para evitar que a impunidade induza à desastres evitáveis. Mariana é mais uma tragédia a nos ensinar lições. Que suas impressionantes ?esculturas de lama? não nos deixem esquecer que uma única vida é mais importante que toneladas de papel e leis inócuas.