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Pelas coxias do Deodoro

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Eu adentrei naquela casa pelas coxias. Foi desse lugar situado dentro da caixa teatral, mas fora de cena, que coloquei meus pés no palco italiano do Teatro Deodoro pela primeira vez. Talvez esse tenha sido também o meu primeiro momento numa casa de arte, que já começara com a luz sobre os meus movimentos. Hoje repouso na plateia como uma espectadora. Eu fiz ballet clássico e as apresentações de fim de ano aconteciam sempre em palcos improvisados de algum ginásio de esportes de Maceió. Foi quando, em 1998, a mestra Eliana Cavalcanti informou que o espetáculo ?Bodas de Prata? seria no Teatro Deodoro, reaberto após uma reforma que o deixou fechado por dez anos. Foi sobre o palco do Deodoro que minhas sapatilhas e o tablado do teatro se encontraram pela primeira vez. De cortinas fechadas, ensaiei os movimentos, enquanto a plateia apenas via as sombras de cada passo pelas frestas do grande acortinado bordô. Enquanto isso, na cabeça da bailarina, uma única contagem não saía do pensamento: os números da música que representam os movimentos. Era assim, do número ?um? até o ?oito?, que as canções ganhavam algarismos e a coreografia surgia. No fim, música, dança e números eram cravados, num mesmo compasso, em minha cabeça. Cabeça essa que deveria parecer leve como todo o corpo de uma bailarina clássica. Ela que esconde, nessa aparência sutil e graciosa, uma disciplina rígida de técnicas aprendidas e apreendidas em cada aula-ensaio. Já antes de entrar em cena, a concentração era no camarim. E depois nas partes laterais do palco. Até me posicionar para tudo fluir na contagem exata. Era uma rotina de dedicação que sempre encontrava tempo para uma nova descoberta da caixa teatral. Era a escada de caracol, a portinha escondida embaixo do palco e os pezinhos em movimento en dehors (para fora) e en dedans (para dentro) que apareciam por toda parte do espaço cênico. O ballet me proporcionou muitos presentes. Primeiramente, ter Eliana Cavalcanti como mestra e suas belas ?crias? do Ballet Íris de Alagoas como professoras. Levar a disciplina da dança para a vida. Conhecer e admirar a música clássica. E lembrar aquela ?Primavera? que dancei, no palco do Deodoro, ao som de Antonin Dvorák, em 1998. Nos 105 anos do Deodoro (comemorado no último dia 15 de novembro), eu me permito ser só emoção nesse teatro. Como ele perdeu o bordô de sua plateia, sou eu que enrubesço feliz pela arte que lá eu vejo nascer.

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