Opinião
O fator humano
Nos últimos anos, a expressão ?crise hídrica? ? eufemismo para a deficiência do abastecimento de água ? passou a fazer parte do vocabulário do brasileiro de várias regiões, não apenas do Nordeste, onde a estiagem é um problema crônico. Também a população de São Paulo se vê às voltas com o risco de racionamento. A ameaça de escassez dos recursos hídricos tem colocado essa questão centro das preocupações e disputas em todo o mundo. Se não forem tomadas medidas urgentes com relação à degradação ambiental, ao aquecimento global e ao desperdício, em 2025, metade da população mundial não terá acesso à água potável. No Brasil, a ideia de que o país é ?abençoado? por abundância de água doce contribuiu para a má gestão de recursos hídricos nos últimos anos. Hoje, o nordestino assiste impotente ao seu principal manancial, o Rio São Francisco, agonizar. O rio vive uma situação preocupante, resultado tanto da longa estiagem quanto das diversas ações humanas de degradação, que visam à lógica econômica em detrimento da preservação ambiental e da população ribeirinha dos rios brasileiros. Segundo especialistas, essa é a pior crise da Bacia do São Francisco ? que abastece 97% da região Nordeste ? nos últimos 84 anos. Mesmo que as chuvas voltem a cair abundantemente, a população deve se conscientizar que é preciso racionalizar o uso da água. É preciso superar o senso comum de que uma água de alto padrão (ou seja, potável) deve ser utilizada indistintamente para as diferentes atividades da vida cotidiana. É possível, por exemplo, pessoas lavando calçadas e quintais com água tratada. Além dos investimentos em infraestrutura, recuperação de mananciais e construção de adutoras, boa parte da solução para crise do abastecimento de água se concentra na economia da água, na criação de uma rede secundária para a água de reúso, do aumento da captação de água de chuva, além da ampliação da rede de tratamento de esgoto. São procedimentos que devem começar pelo cidadão comum e ser adotados em larga escala por empresas, órgãos públicos e propriedades rurais. O Brasil enfrenta atualmente uma severa crise hídrica, por isso deve-se aproveitar o momento para um intenso questionamento sobre o que funcionou e o que não funcionou adequadamente e o que deve feito agora, enquanto ainda há tempo.